O verão mais quente alguma vez vivido pela França continental desde 1900, com uma sucessão quase ininterrupta de ondas de calor, provocou quase 8.000 mortes em excesso, segundo dados provisórios das autoridades de saúde.
Durante o mais longo episódio de calor alguma vez registado no território, de 27 de julho a 20 de agosto, foram contabilizadas pelo menos 817 mortes em excesso – que ainda não podem ser atribuídas com certeza ao calor – pela Santé publique France (SpF), que divulgou hoje um novo balanço.
Esta terceira onda de calor do verão, que atingiu quase 90% da população da França continental, foi menos mortífera do que as duas anteriores.
As 817 mortes acima do esperado somam-se às 5.764 mortes estimadas entre 17 de junho e 02 de julho, às 1.243 entre 03 e 20 de julho e às 95 durante um breve pico de calor antes do verão, de 24 a 28 de maio. No total foram confirmadas 7.919 mortes.
Este balanço deverá, contudo, aumentar: os números ainda têm de ser consolidados – a recolha não terminou – e não abrangem todo o verão, cujo período de vigilância decorre de 01 de junho a 15 de setembro.
"Este verão de 2026 foi completamente inédito, com episódios de ondas de calor quase contínuos", sublinhou à agência noticiosa France-Presse (AFP) Guillaume Boulanger, responsável pela unidade de qualidade dos ambientes de vida, do trabalho e saúde das populações da SpF.
Segundo Boulanger, habitualmente, os dias de onda de calor representam "cerca de 5% do verão", mas este ano a França ficará “claramente acima".
O verão de 2026 foi, segundo a Météo-France, o mais quente desde 1900, à frente dos verões de 2003, cujo forte impacto na saúde, com as suas 15.000 mortes, teve um efeito de choque, mas também de 2022.
As alterações climáticas, causadas principalmente pela queima de carvão, petróleo e gás associada às atividades humanas, aumentam a probabilidade de ocorrência de episódios de ondas de calor tão intensos, longos e geograficamente extensos.
Este verão, estas ondas de calor atingiram, além de França, "principalmente a Europa Ocidental: Alemanha, Reino Unido, Itália", observou Boulanger, recordando que os métodos de contagem diferem de país para país e dificultam as comparações.
Enquanto os episódios anteriores também tinham afetado populações mais jovens, desta vez foram "quase exclusivamente pessoas com 75 anos ou mais": foram registadas 751 mortes acima do esperado nesta faixa etária, indicou a agência de saúde.
Quase metade destas mortes em excesso registadas durante 25 dias de onda de calor ocorreu em três dias, de 14 a 16 de agosto, logo após os dois dias "mais intensos" pelas suas temperaturas e ocorridos na "maior extensão do território", precisou Robin Lagarrigue, responsável por estudos científicos na SpF.
Com exceção da Normandia e da Occitânia, todas as regiões registaram um excesso de mortalidade por todas as causas. A Borgonha-Franco-Condado, com 140 mortes em excesso, foi a mais afetada, atingida por uma das durações de exposição mais longas deste episódio.
Ao contrário de episódios anteriores de ondas de calor do verão, o excesso de mortalidade não parece ter sido mais acentuado no domicílio: cerca de metade das mortes foi registada no hospital, contra 25% no domicílio e pouco mais de 20% em lares de idosos (o Ehpad).
Mas os lares de idosos são, por vezes, considerados os domicílios dos falecidos, e algumas mortes podem ocorrer no hospital após uma exposição no domicílio ou num Ehpad. É, por isso, necessária prudência nesta fase na interpretação.
Segundo as duas instituições, nas três ondas de calor do verão, a primeira (17 de junho a 02 de julho) foi marcada por cerca de 4,5 vezes mais mortes em excesso do que a segunda e por sete vezes mais do que a terceira.
A SpF e a Météo-France avançam com hipóteses para explicar esta diferença: o caráter muito intenso, mas também a precocidade. Em junho, os organismos ainda não estavam aclimatados ao calor, e a atividade (trabalho, escola, etc) ainda era intensa.
Além disso, prosseguem, as pessoas mais frágeis (idosas, com patologias crónicas, más condições de habitação, entre outras) podem ter morrido logo no início do verão.
Após a publicação dos primeiros números, que vão sendo progressivamente apurados, os balanços de mortalidade dos períodos de calor intenso de 2026 alimentaram uma acesa batalha política com a aproximação das eleições presidenciais, com o Governo a ser acusado de falta de preparação pela oposição.
Um balanço definitivo é esperado no início de 2027. Os efeitos na saúde não se limitam às ondas de calor, sendo geralmente observada uma sobremortalidade assim que a temperatura média diária ultrapassa os 25°C.