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Moçambique tem menos de quatro enfermeiros por 10 mil habitantes - ministro

Lusa
16-09-2026 10:47h

O ministro da Saúde moçambicano reconheceu hoje que o país enfrenta um défice de enfermeiros, com menos de quatro profissionais por cada 10 mil habitantes, defendendo mais qualidade, humanização e ética no atendimento aos doentes.

"Temos um rácio de 3,8 enfermeiros por 10 mil e sete (...) de saúde materno-infantil por 10 mil habitantes. Este rácio é desafiador. É sentido diariamente nas vossas rotinas", disse Ussene Isse, durante a abertura das XXI Jornadas Científicas do Instituto Superior de Ciências de Saúde (Iscisa), em Maputo.

Segundo o governante, esta realidade significa que "cada enfermeiro e enfermeira em Moçambique carrega nos ombros uma responsabilidade multiplicada" e a insuficiência de recursos humanos torna indispensável uma gestão mais eficiente dos serviços e uma aposta contínua na qualificação dos profissionais.

"Significa que a otimização do tempo, a precisão no diagnóstico de enfermagem e a eliminação do desperdício não são apenas metas de gestão, são imperativos de sobrevivência institucional", declarou.

Apesar do reforço da formação superior no setor, Isse manifestou preocupação com a degradação da qualidade do atendimento nas unidades sanitárias, considerando que os avanços académicos nem sempre têm sido acompanhados por melhorias na relação com os pacientes.

"Numa era em que, em termos de qualidade das equipas de saúde, com o aumento das instituições de formação superior melhorou bastante. Todos somos doutores, mas a qualidade de atendimento baixou muito", afirmou o ministro, acrescentando que o país perdeu, na última década, a oportunidade de consolidar os princípios de humanização dos serviços de saúde defendidos pelo Governo ao longo da última década.

O governante voltou a alertar sobre a existência de sucessivas reclamações dos utentes dos serviços públicos de saúde, apontando irregularidades que continuam a afetar a confiança da população: "A população queixa-se quase sempre do mau atendimento, cobranças ilícitas, principalmente nas maternidades e serviços de urgência, acrescido do reporte de furto e/ou desvio de medicamentos e material médico-cirúrgico".

Segundo Usse Isse, estas práticas comprometem a credibilidade da classe profissional e contrastam com o esforço da maioria dos trabalhadores do setor.

Para inverter o cenário, o ministro atribuiu às instituições de ensino um papel central na recuperação dos valores éticos e humanos da profissão. O governante defendeu ainda que os comportamentos desviantes não devem obscurecer o trabalho desenvolvido pela maioria dos profissionais de saúde em condições frequentemente difíceis.

"Devemos fazer de tudo para que os poucos que têm essas más práticas não manchem o esforço abnegado de muitos profissionais de saúde que, mesmo em condições adversas, fazem omeletes sem ovos", afirmou, antes de acrescentar: "Bem hajam os profissionais de saúde que destilam empatia e amor ao próximo".

Dirigindo-se aos docentes e estudantes presentes, Ussene Isse apelou a uma enfermagem mais assente na investigação científica, na análise de dados e na revisão crítica das práticas clínicas.

"A rotina cega é a maior inimiga da segurança do paciente", afirmou, defendendo "uma enfermagem cada vez mais baseada em dados robustos, em protocolos validados, e menos na repetição impensada de hábitos antigos".

O ministro da Saúde moçambicano revelou na semana passada que pelo menos 54 profissionais foram expulsos no ano passado por más práticas no setor e prometeu “mão dura” e “tolerância zero”, avisando que não haverá “piedade” para essas infrações.

Ussene Isse defendeu que os gestores das unidades de saúde que não estejam preparados para enfrentar os problemas devem ser substituídos, comparando a gestão do setor a uma equipa desportiva que precisa de trocar jogadores quando estes não conseguem contribuir para alcançar os objetivos definidos.

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