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Prémio Champalimaud distingue investigação que devolveu visão a cegos

Lusa
15-09-2026 18:00h

O trabalho inovador que permitiu que deficientes visuais ou cegos devido a doenças da retina recuperassem a visão valeu aos investigadores Botond Roska e José-Alain Sahel o Prémio António Champalimaud 2026, anunciou hoje a fundação que o atribui.

Em comunicado, a Fundação Champalimaud adianta que Botond Roska e José-Alain Sahel “estão entre os mais criativos e produtivos investigadores mundiais no desenvolvimento de tecnologias destinadas à recuperação da visão” e considera o seu trabalho “um exemplo notável de investigação translacional, ao ligar descobertas da biologia fundamental à prática clínica para desenvolver novas terapêuticas contra a perda de visão”.

Cerca de 43 milhões de pessoas em todo o mundo são cegas e 295 milhões vivem com deficiência visual, muitas delas devido a doenças da retina e de degenerescência macular.

Mas, “apesar dos avanços científicos, continuam a ser escassos os tratamentos capazes de restabelecer uma visão funcional após a perda provocada por distrofias hereditárias da retina ou pela degenerescência macular da idade”, situação que “Roska e Sahel ajudaram a mudar” ao longo de mais de duas décadas de trabalho, indica a Fundação Champalimaud.

Os dois médicos desenvolveram terapias que utilizam a técnica optogenética e que permitem tornar sensíveis à luz algumas células fotorrecetoras na retina de pessoas cegas reativando-as, ou seja, restaurando a sua funcionalidade.

Os neurónios tornados sensíveis à luz vão substituir os fotorrecetores perdidos devido a danos e doenças genéticas, possibilitando a recuperação parcial da visão.

“Em modelos animais de degenerescências hereditárias da retina, a ativação de células ganglionares e bipolares da retina ou de cones fotorrecetores [responsáveis pela perceção das cores] “dormentes” permitiu restabelecer algum grau de função visual”, refere o comunicado.

“Mais tarde, estas abordagens foram testadas em ensaios clínicos em humanos, demonstrando ser possível recuperar parcialmente a visão em doentes”, acrescenta.

Botond Roska, médico e investigador biomédico húngaro da Universidade de Basileia, na Suíça, é também diretor fundador do Instituto de Oftalmologia Molecular e Clínica, na mesma cidade. Neurobiólogo da retina, o cientista “identificou novas e complexas interligações neuronais essenciais à organização da visão na retina humana e animal”.

Mais concretamente, “desenvolveu técnicas de mapeamento dos circuitos retinianos através de vírus transsinápticos e recorreu a métodos genéticos para introduzir canais iónicos sensíveis à luz nas células bipolares ON da retina”.

José-Alain Sahel, oftalmologista e investigador francês da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos da América, e diretor fundador do Institut de la Vision, em Paris, França, realizou estudos pioneiros sobre a perda de visão causada pela neuropatia ótica hereditária de Leber (Leber Hereditary Optic Neuropathy - LHON), tendo demonstrado em ensaios clínicos que a expressão do gene mitocondrial ND4 pode prevenir a cegueira em doentes com esta doença.

O cientista “identificou também uma proteína fundamental da retina que promove a sobrevivência dos fotorrecetores do tipo cone, responsáveis pela visão diurna”.

A dupla, galardoada em 2024 com o Prémio Wolf de Medicina, recebe este ano o Prémio António Champalimaud de Visão, no valor de um milhão de euros, que “reconhece contribuições notáveis tanto para o alívio do sofrimento relacionado com a visão como para a investigação científica de ponta na área da visão e oftalmologia”.

Criado em 2006, o Prémio Champalimaud é atribuído anualmente, homenageando, nos anos pares, “descobertas científicas inovadoras na compreensão e/ou preservação da visão” e distinguindo, nos ímpares, “organizações inovadoras e iniciativas colaborativas que tiveram um impacto transformador na prevenção da cegueira e da deficiência visual, particularmente em regiões de rendimento baixo e médio”.

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