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Dispositivo português para ajudar pessoas com demência finalista de prémio de um milhão de libras

Lusa
02-02-2026 17:16h

Um projeto português de um dispositivo para ajudar pessoas que vivem com demência a manter a sua independência é um dos cinco finalistas do Prémio Longitude Demência no valor de 1,15 milhões de euros.

“O Autonomous (Autónomo) é um sistema de sensores que pode ser posicionado em diferentes locais da casa de uma pessoa para a ajudar a manter a sua independência após o diagnóstico de demência, preservando a rotina e a confiança” e “mantendo o controlo”, explicaram os investigadores da Associação Fraunhofer Portugal Research e coordenadores do projeto Ricardo Graça e Ana Vasconcelos em declarações à agência Lusa por correio eletrónico.

O sistema utiliza inteligência artificial e inclui um pequeno computador - que fica na casa do utilizador para proteger a sua privacidade -, ligado a câmaras e microfones e a um “smartwatch” utilizado pela pessoa com demência, que a lembra das suas rotinas e de verificar, por exemplo, se deixou o fogão ligado e uma torneira ou o frigorífico abertos.

Para os investigadores, os principais benefícios incluem o bem-estar emocional, aumento da autoestima, estímulo mental, saúde física e a ligação social, já que vivendo na sua casa os doentes podem continuar “na sua comunidade local, mantendo ligações com amigos e vizinhos”.

Desenvolvido por uma equipa do centro de investigação aplicada Associação Fraunhofer Portugal Research, no Porto, em parceria com a Universidade Carnegie Mellon (Estados Unidos) e a LUCA School of Arts (Bélgica), o projeto Autonomous contou ainda com a participação de pessoas que vivem com demência, “um requisito fundamental” do prémio.

“Desenvolvemos o Autonomous em conjunto com pessoas com demência, familiares e cuidadores em três países (Portugal, Bélgica e Itália), envolvendo mais de 150 pessoas”, incluindo “81 pessoas com demência, 28 cuidadores dedicados e 34 profissionais de saúde”, indicaram os cientistas à Lusa.

Acrescentaram que o dispositivo foi testado em casa de doentes e que “os testes-piloto confirmaram uma perceção geral positiva e uma elevada utilidade, validada pelo pedido de três participantes para continuar a utilizar a solução após a conclusão do estudo”.

Ricardo Graça e Ana Vasconcelos disseram ainda que passarão “o próximo ano a fazer os ajustes finais necessários” para preparar o modelo “para o mundo real” e que não pretendem patenteá-lo.

“Estamos a torná-la de código aberto porque acreditamos que deve servir a comunidade e permitir a melhoria coletiva nos cuidados à demência”, acrescentaram.

Em termos de comercialização, indicaram estar "focados no licenciamento da tecnologia a instituições que oferecem apoio domiciliário a pessoas com demência”, considerando que “estas organizações são os parceiros ideais”, tendo em conta que “os custos de produção são atualmente elevados”.

“No entanto, o nosso objetivo a longo prazo é continuar a reduzir o preço para que, eventualmente, o possamos tornar amplamente disponível e acessível para uso doméstico pelas famílias”.

O projeto português foi escolhido em 2024 para a final do Prémio Longitude Demência, juntamente com outros quatro (dois do Reino Unido, um dos Estados Unidos e outro da Austrália), de um grupo global de 24 semifinalistas.

Cada um dos finalistas recebeu 300.000 libras (345.000 euros) para desenvolver as suas ideias e criar “soluções práticas, concebidas especificamente para pessoas que vivem com demência”.

O objetivo deste prémio é promover “a criação de ferramentas personalizadas baseadas em tecnologia, cocriadas com pessoas que vivem na fase inicial da demência, ajudando-as a viver de forma independente durante mais tempo”.

Financiado pela organização de solidariedade britânica Alzheimer’s Society e pela agência de inovação do Reino Unido Innovate UK, o prémio é atribuído pela Challenge Works e será anunciado numa cerimónia no Museu do Design de Londres em março.

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