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Desinformação sobre cólera leva populares a vandalizar centro de saúde em Moçambique

Lusa
02-02-2026 14:24h

Populares de Nairoto, na província moçambicana de Cabo Delgado, vandalizaram o centro de saúde local, em mais um caso de desinformação sobre cólera no país, levando à fuga dos profissionais, disse hoje fonte oficial.

“Foi vandalizada a Unidade Sanitária de Nairoto, na qual resultou no encerramento da mesma e a retirada por questões de segurança dos técnicos de saúde”, disse à Lusa, em Pemba, Eugénia Assusse, médica chefe provincial de Cabo Delgado, norte de Moçambique.

Sem precisar o dia em que aconteceu a vandalização, explicou que a revolta dos populares daquela localidade do distrito de Montepuez resultou de não acreditarem na existência de cólera naquela zona, apesar do surto ativo atualmente, com aumento de casos na província, que vai receber esta semana uma campanha de vacinação.

Neste cenário - que devido à desinformação sobre a doença se tem repetido nos últimos anos noutros pontos do centro e norte de Moçambique - , a população do posto administrativo de Nairoto, que regista um surto de cólera, tem agora de percorrer quase 100 quilómetros para receber tratamento médico.

“Isto culminou com a população fazendo deslocação com meios próprios para a sede do distrito de Montepuez, procurando assistência, e que obviamente culminou com aparição de casos de cólera ao nível da sede do distrito”, disse a fonte.

Para mitigar a situação, foi enviada uma equipa de médicos militares para prestar assistência às populações de Nairoto.

“Naquela área de saúde, infelizmente, não temos capacidade de responder ao surto atualmente através dos colegas do setor da saúde, contudo, foi mobilizada uma equipa médica militar que lá, e está a fazer o trabalho”, explicou.

Eugénia Assusse acrescentou que há dificuldades igualmente no distrito de Mecúfi, após a agressão, no domingo, de populares ao líder comunitário em Nimanro, no mesmo cenário de desinformação.

“Foi agredido o líder comunitário, porque temos a entrada de casos [de cólera] desta área de saúde”, afirmou.

Moçambique registou 334 novos casos de cólera e 22 mortos nos últimos quatro dias de janeiro, somando 59 óbitos desde o início deste surto, em setembro, segundo dados compilados hoje pela Lusa a partir de boletins oficiais.

De acordo com o último boletim da doença, da Direção Nacional de Saúde Pública, com dados de 03 de setembro a 31 de janeiro, do total de 3.867 casos de cólera contabilizados neste período, 1.643 foram na província de Nampula, com um acumulado de 21 mortos, 1.525 em Tete, com 28 óbitos, e 609 em Cabo Delgado, com oito mortos.

No balanço anterior, até 30 de janeiro, registavam-se 3.725 casos de cólera, sendo 135 novos doentes e 12 mortos só nessas 24 horas anteriores. No dia 31 de janeiro foram contabilizados 104 novos casos e quatro mortos, e antes, no dia 28 de janeiro, 95 casos e 12 mortos.

O epicentro atual do surto é a província de Tete, centro do país, com uma taxa de letalidade em 1,8%, face à taxa nacional de 1,5%, e com 44 novos doentes nas 24 horas anteriores (31 de janeiro), segundo os mesmos dados. O surto está ativo, nesta província, nos distritos de Marara, Tsangano, Moatize, Changara, Cahora Bassa e Tete, mas também em Morrumbala, distrito da província vizinha da Zambézia.

Contudo, em Cabo Delgado foi declarado nos últimos dias um novo surto nos distritos de Mecufi e Montepuez, além dos ativos em Pemba e Metuge. O último balanço refere igualmente que foi declarado um surto no distrito de Guro, província de Manica, centro do país.

No surto de cólera anterior, com dados da Direção Nacional de Saúde Pública de 17 de outubro de 2024 a 20 de julho de 2025, registaram-se 4.420 infetados, dos quais 3.590 na província de Nampula, e um total de 64 mortos.

As autoridades moçambicanas pretendem vacinar contra a cólera, de 04 a 08 de fevereiro, mais de 1,7 milhões de pessoas em quatro nas províncias de Niassa (Lago), Cabo Delgado (Metuge e Pemba), Zambézia (Quelimane) e Sofala (Beira), foi hoje anunciado.

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