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Ordem defende que estudo sobre partos fora do hospital devia incluir causas indiretas

Lusa
02-01-2026 16:36h

O bastonário da Ordem dos Médicos defendeu hoje que os partos em ambulâncias e na via pública não podem ser explicados apenas pelo encerramento de urgências, apontando para o clima de desconfiança das grávidas relativamente à resposta do SNS.

Carlos Cortes comentava desta forma à agência Lusa um estudo da Direção Executiva do SNS, divulgado hoje pelo Público, segundo o qual ocorreram em 2025, até 20 de novembro, 70 partos em ambulâncias e na via pública com ativação do INEM, mas apenas seis poderiam ter sido evitados se a urgência de obstetrícia mais próxima não estivesse encerrada.

O estudo, realizado a pedido do Ministério da Saúde sobre os partos, adianta que o aumento destes partos registados pelo INEM poderá dever-se a um maior uso da linha SNS24, revelando ainda, com base numa análise de nove partos em contexto extra-hospitalar, que a maioria das grávidas era, afinal, acompanhada no SNS, contradizendo a teoria da ministra da Saúde.

Para o bastonário, é necessário colocar “as coisas no ângulo certo”, explicando que o estudo terá analisado as causas diretas dos partos fora das maternidades, mas é necessário olhar também para “as causas indiretas”, nomeadamente “a desconfiança neste momento das mulheres na resposta do Serviço Nacional de Saúde”.

Segundo Carlos Cortes, essa desconfiança tem levado muitas grávidas a adiarem a sua ida às maternidades, às urgências, acabam por ter os filhos nas ambulâncias ou na via pública.

Por outro lado, alertou, "há cada vez mais partos feitos no domicílio por pessoas que não estão qualificadas para fazer esses partos".

“Portanto, temos que saber analisar estas causas indiretas. Não é só tentar perceber que urgências estavam abertas naquele momento, é tentar perceber o ambiente em que nós estamos”, defendeu, comentando que não se recorda de haver, nas últimas décadas, “um ambiente tão negativo e de desconfiança da população em relação à resposta dos serviços de urgência e, nomeadamente, à resposta das maternidades”.

O bastonário considerou ainda que a resposta passa por medidas estruturais, nomeadamente contratar mais obstetras, mas também anestesiologistas, lembrando que muitos encerramentos de maternidades se devem à escassez de anestesiologistas.

A este propósito, referiu que no Hospital Garcia da Horta, em Almada, frequentemente citado nos encerramentos de urgências obstétricas, a esmagadora maioria dos encerramentos não está relacionada com a falta de obstetras, mas com a falta de anestesiologistas, uma área que considera que o Ministério da Saúde não tem valorizado.

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