Com a saúde como prioridade para o primeiro ano como Presidente da República, António José Seguro, que toma posse na segunda-feira, já avisou que vetará as alterações à legislação laboral propostas pelo Governo, se ficarem na versão atual e não houver acordo na Concertação Social.
Quando apresentou a candidatura a Belém, em 15 de junho do ano passado, Seguro disse que vinha para “servir Portugal com seriedade, independência e ação” e mostrou-se “livre e sem amarras" e assegurando que regressava à vida política “para unir”.
Estas ideias foram uma constante nas várias intervenções que fez ao longo da caminhada até Belém, onde tem para o primeiro ano de mandato a prioridade já definida: a saúde e um pacto para o setor.
Eis algumas das principais ideias que Seguro defendeu ao longo dos últimos meses:
+++ Saúde “a tempo e horas”: a prioridade das prioridades +++
A saúde foi, provavelmente, o tema em relação ao qual António José Seguro mais falou ao longo dos últimos meses.
Criticando um “Estado com pés de barro” devido às falhas na resposta aos problemas, o Presidente da República eleito quer saúde a “tempo e horas” para os portugueses e já decidiu que esta será a sua primeira causa no mandato inaugural em Belém e, nas suas palavras, a “prioridade das prioridades”.
Ao longo da campanha, com os casos nos atrasos no socorro, mostrou-se “completamente irritado e indignado” e defendeu, dia após dia, o pacto para a saúde que propôs.
A sua proposta não é para “meia dúzia de palavras”, mas para “uma solução duradoura, que tenha objetivos, metas, uma estratégia, orçamentos e que depois seja avaliada”.
+++ Legislação laboral: os avisos de que veta como está e a necessidade de acordo na Concertação +++
Ao longo dos meses, Seguro foi fazendo críticas à decisão do Governo de avançar para esta reforma da legislação laboral, lamentando que uma mudança desta natureza seja feita "apenas por caprichos ou por marcas ideológicas de momento" e apontando que na campanha para legislativas que deram a vitória à AD não tenha sido clara a “necessidade ou urgência” destas mudanças.
"Eu não encontro nenhuma razão para se fazer uma alteração à legislação laboral, que só vem trazer precisamente o contrário da paz social que é necessária", disse, tendo mesmo desafiado o Governo a retirar a proposta que “não tem sentido absolutamente nenhum”.
Seguro avisou que a proposta do executivo, tal como está, merecerá o seu veto político desde o Palácio de Belém.
Na campanha para a primeira volta, defendeu que o tema saiu do debate político para "ver se ajudava o candidato do Governo", numa referência a Marques Mendes.
Na segunda volta, garantiu que não promulgaria as alterações à legislação laboral tal como estão porque não fizeram parte das propostas eleitorais e porque “não houve acordo” na Concertação Social, sendo esta última “fundamental nas sociedades modernas para criar a tal previsibilidade e a tal estabilidade”.
+++ Relação com o Governo: exigente mas sem ser um “primeiro-ministro sombra” +++
“Prometi a lealdade e cooperação institucional com o Governo. Cumprirei a minha palavra. Jamais serei um contrapoder, mas serei um Presidente exigente com as soluções e com os resultados”. A frase é de Seguro, no discurso da vitória, na noite de 08 de fevereiro.
Desde as Caldas da Rainha diretamente para São Bento o aviso ficou feito. Esse aviso tinha sido repetido, dia após dia, durante a campanha.
Seguro comprometeu-se a não ser “um primeiro-ministro sombra”, mas insistiu na tecla da exigência e, para as reuniões de quinta-feira com o primeiro-ministro o menu já está escolhido: não será “para tomar chá”, mas para trabalhar e resolver os problemas dos portugueses.
“A política ou serve para resolver os problemas das pessoas ou então não serve rigorosamente para nada”, disse diversas vezes quando defendia a política do “P grande”.
+++ Estabilidade, dissolução do parlamento apenas como último recurso e um Presidente menos vezes na televisão +++
O tema da estabilidade foi uma constante nas intervenções do futuro chefe de Estado.
Em Matosinhos, no encerramento da longa campanha, Seguro insistiu na necessidade de Portugal não poder ter “mais instabilidade nem incertezas” nem ir “à aventura”.
“O Palácio de Belém não pode ser um local de confronto e conflito, tem que ser um porto seguro para que o país possa progredir, defendeu.
Ainda longe da vitória e quando as sondagens não eram animadoras, numa entrevista à agência Lusa em novembro, o candidato presidencial apoiado pelo PS enfatizou que pretende que uma dissolução do parlamento seja “o último dos últimos recursos” e não considerou que um chumbo do Orçamento do Estado implique necessariamente o uso da chamada “bomba atómica”.
“Eu não quero ser um presidente reativo nem um presidente que ameaça em público”, disse ainda, antecipando que, consigo, haverá “menos presidente nos telejornais, mas mais presidente a fazer aquilo que deve”. prometeu ainda que “não falará por tudo e por nada”.
Quanto à duração da legislatura, Seguro também respondeu durante a campanha: “não será por mim que ela será interrompida”.
+++ Mau tempo: as perguntas que não ficarão sem resposta e a primeira Presidência aberta para verificar que os apoios chegam ao terreno +++
Quando a tempestade Kristin devastou algumas zonas do país, o futuro chefe de Estado surpreendeu tudo e todos ao anunciar de viva voz aos jornalistas que, na véspera, tinha ido sozinho visitar alguns dos locais mais afetados.
Voltou a fazê-lo sem levar comunicação social, fez propostas ao Governo, falou com os autarcas, doou lonas que seriam para cartazes para fazer coberturas de casas e insistiu que aquele era o tempo de responder a uma catástrofe que o tinha deixado chocado.
Para depois da emergência ficaria o apuramento das responsabilidades sobre os problemas na resposta ao mau tempo e o aviso de que “estará vigilante, fará as perguntas difíceis”.
No discurso da vitória, a promessa de que não esquecerá nem abandonará as pessoas afetadas.
Dias antes, na reta final da campanha Seguro tinha anunciado que a primeira Presidência aberta que iria promover seria precisamente na zona Centro, fortemente afetada, para verificar ‘in loco’ se os apoios prometidos pelo Governo realmente chegam realmente às empresas e às pessoas.
+++ Um presidente de todos, que deixará os interesses à porta de Belém num mandato independente e sem amarras +++
Para Seguro não bastava vencer “por um” e, por isso, pediu por diversas vezes uma legitimidade eleitoral reforçada.
Contados os boletins e conseguindo bater o recorde do socialista Mário Soares ao superar a barreira dos 3,5 milhões de votos, o ex-líder do PS assegurou que será o presidente de “todos, todos, todos os portugueses”, mesmo os que não votaram nele e, logo na noite das eleições, afiançou que deixou de ver André Ventura como seu adversário.
A independência no exercício do seu mandato foi uma promessas que deixou com a sua “candidatura suprapartidária”, lembrando desde o momento em que se apresentou que vive “sem amarras” e que é livre, o que vai levar consigo para Belém.