A Presidente da Secção Regional do Sul da Ordem dos Enfermeiros, Dora Franco, garante que a sobrelotação das urgências resulta da suborçamentação e falhas estruturais.
No programa “Efeito Placebo” do Canal S+, a especialista alertou que a pressão nas urgências é transversal ao país e decorre do "fantasma do défice", defendendo novos modelos de gestão liderados por enfermeiros para apoiar populações vulneráveis.
“A sobrelotação que sufoca as urgências hospitalares de norte a sul do país não é um fenómeno isolado, mas sim o reflexo de um problema estrutural e financeiro profundo”, afirmou a analista que rejeita a ideia de que o aumento da população migrante seja a causa central da crise no Serviço Nacional de Saúde (SNS).
"A questão da sobrelotação das urgências não é só específica do Hospital Amadora-Sintra. É uma das urgências sob maior pressão, mas temos Torres Vedras, o Barreiro, o Hospital de Évora, no Algarve. De uma forma transversal, todas as urgências apresentam este subdimensionamento em relação à procura", contextualizou Dora Franco, acrescentando de forma perentória: "O facto de termos uma população migrante que recorre aos nossos cuidados não tem de ser o bode expiatório do problema do SNS."
O "fantasma do défice" e a tutela das Finanças
Para a enfermeira, a raiz do estrangulamento do serviço público de saúde reside no financiamento insuficiente e na dependência das cabimentações orçamentais.
"O problema do Serviço Nacional de Saúde tem a ver com o sub-orçamento que é dado. Acabamos, desde a Troika, por estar um bocadinho cativos e reféns daquelas que são as decisões do Ministério das Finanças — o fantasma do défice", criticou a Presidente da Secção Regional do Sul da Ordem dos Enfermeiros . Segundo a convidada, “partir de uma base orçamental já de si inflacionada pela realidade origina défices inevitáveis ao longo do ano, à medida que os custos com consumíveis e recursos humanos aumentam”.
Multiculturalidade e a resposta da enfermagem
Apesar de reconhecer que se torna complexo lidar com a multiculturalidade na gestão de cuidados, Dora Franco sublinhou que a vulnerabilidade destas populações requer integração e não culpabilização. Casos de grávidas sem acompanhamento por falta de médico de família, complicações nos partos e maior prevalência de doenças crónicas são desafios que exigem soluções inovadoras de proximidade. "É um desafio a multiculturalidade? É. Mas é o bode expiatório para os problemas do SNS? Também não acredito que seja. Há problemas estruturais que não estão, exclusivamente, relacionados com isso", reiterou.
Como caminho para aliviar a pressão hospitalar, a Presidente da Secção Regional do Sul da Ordem dos Enfermeiros apontou o reforço e a autonomia dos profissionais no terreno: "Se tivéssemos modelos complementares e diferentes em termos de gestão por parte de enfermeiros, poderia ser uma mais-valia e reduzir a pressão junto do Serviço Nacional de Saúde."