A epidemia de Ébola que mais rapidamente cresceu na história alastrou-se a duas novas localidades na República Democrática do Congo (RDCongo), elevando para 60 o número total de zonas afetadas, anunciou hoje Governo congolês.
Segundo os mais recentes dados do Ministério da Saúde da RDCongo, as duas localidades afetadas são Biena e Manguredjipa, na província de Kivu do Norte, onde a taxa de mortalidade é muito superior à taxa global de 48%, em parte devido ao atraso nas medidas de resposta.
O ministério registou 5.794 casos confirmados, incluindo 2.786 mortes, à medida que a doença se propaga a uma velocidade sem precedentes.
A epidemia está a propagar-se em condições extremamente difíceis, alimentada pela insegurança, pelas deslocações de população, por uma greve dos profissionais de saúde e por intensos movimentos populacionais.
Na quinta-feira, a RDCongo começou a vacinar profissionais de saúde e outros trabalhadores da linha da frente com a vacina Ervebo, que se revelou eficaz em surtos anteriores de Ébola causados por um tipo diferente e mais comum.
A campanha foi lançada pelo ministro da Saúde congolês, Roger Kamba, na cidade de Kisangani, capital da província de Tshopo, num evento que contou com a presença do diretor-geral do Instituto Nacional de Saúde Pública (INSP), Mwamba Kazadi Dieudonné, no âmbito dos esforços das autoridades para conter a propagação do vírus.
"Em Kisangani, deu-se um passo decisivo com o início da vacinação dos trabalhadores da linha da frente", afirmou Dieudonné num comunicado, no qual salientou que "esta campanha tem entre as prioridades o pessoal de saúde e os trabalhadores da linha da frente nas províncias de Tshopo, Baixo Uélé e Alto Uélé, com o objetivo de reforçar a sua proteção e consolidar a continuidade dos serviços essenciais de saúde".
Assim, o diretor-geral do INSP explicou que "a vacinação é uma das alavancas da estratégia de resposta global, a par da vigilância epidemiológica, da gestão de casos, da prevenção e controlo de infeções, da comunicação de riscos e da participação da comunidade", ao mesmo tempo que insistiu que "a proteção do pessoal envolvido na resposta é uma prioridade para garantir um trabalho eficaz, coordenado e duradouro face à epidemia".
Segundo as autoridades de saúde, estão em curso ensaios clínicos para encontrar uma vacina autorizada para combater a variante Bundibugyo, estando duas vacinas na fase 1 de testes em humanos.
Das 70 mil doses da vacina Ervebo recebidas, 50 mil vão ser distribuídas aos profissionais de saúde e outras 20 mil vão ser utilizadas num ensaio clínico para avaliar a eficácia contra a nova variante do vírus.
A campanha de vacinação foi lançada horas depois de o Uganda ter declarado o fim da epidemia no país, que surgiu na sequência do registado na RDCongo, após ter-se completado o período de 42 dias sem novos casos após a alta do último doente internado no país africano, onde foram confirmados 20 casos e duas mortes.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que a epidemia continua fora de controlo e está a caminho de ultrapassar o surto de Ébola na África Ocidental de 2014-2016, o mais mortífero de que há registo, que causou mais de 11 mil mortes, principalmente na Guiné, Libéria e na Serra Leoa.
A RDCongo — que, em dezembro de 2025, declarou o fim de outro surto, neste caso no Kasaï — é considerada o país com mais experiência do mundo no combate ao vírus do Ébola, tendo enfrentado mais de uma dúzia de surtos desde que o vírus foi identificado em 1976, num duplo surto que teve um dos seus epicentros na localidade congolesa de Yambuku, nas margens do rio Ébola, que deu nome à doença.
O vírus do Ébola é transmitido por contacto direto com fluidos corporais de pessoas ou animais infetados e causa febre hemorrágica grave, vómitos, diarreia e hemorragia interna.