A diretora-executiva da agência ONUSIDA, Winnie Byanyima, apelou hoje a uma "mudança radical" dos governos africanos face aos seus investimentos em despesas em saúde devido aos recuos no financiamento internacional para ajuda humanitária.
No ano passado, a administração do Presidente norte-americano, Donald Trump, cessou a atividade da maior agência de ajuda ao desenvolvimento do mundo, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), que estava ativa há 60 anos, pondo fim ao financiamento de programas em numerosos países.
Outros países ocidentais, incluindo a França, a Alemanha e o Reino Unido, também reduziram a sua ajuda externa, mergulhando as organizações humanitárias na incerteza e afetando fortemente a luta contra doenças como a sida.
A ONUSIDA perdeu assim cerca de 25% do seu financiamento total no ano passado, indicou Byanyima.
"A África deve adaptar rapidamente os seus sistemas de saúde de modo a preservar a vida das suas populações e avançar para uma soberania sanitária", declarou a responsável da agência das Nações Unidas (ONU) encarregue da luta contra o VIH (Vírus da imunodeficiência humana) e a sida, numa entrevista concedida à France-Presse (AFP) à margem de uma cimeira da União Africana sobre a saúde, organizada em Acra, a capital do Gana.
"Não temos tempo a perder. É um momento de mudança radical", afirmou.
O continente africano concentra o maior número de pessoas a viver com o VIH no mundo e 64% das pessoas seropositivas residem na África subsaariana.
No ano passado, 60% das novas infeções foram também registadas no continente.
"Cada país deve tomar decisões financeiras e estruturais", declarou Byanyima, defendendo uma mobilização acrescida de recursos no interior do continente.
"Temos de redefinir as nossas prioridades. Temos de gastar de outra forma se quisermos proteger a saúde das nossas populações", acrescentou.
Segundo a responsável, é necessário reforçar a integração regional e desenvolver uma produção local de medicamentos.
"Se não o fizermos, é certo que os nossos progressos vão parar", alertou.
Além dos problemas de financiamento, lamentou igualmente o "grave recuo em matéria de direitos humanos" de que são vítimas as pessoas seropositivas, o que "empurra essas pessoas para a clandestinidade" e as dissuade de fazerem testes de diagnóstico, de recorrerem à prevenção e de seguirem um tratamento.
Diversos países africanos, incluindo o Gana, começaram recentemente a endurecer as sanções aplicadas às relações entre pessoas do mesmo sexo, alimentando as preocupações sobre a proteção dos direitos das pessoas LGBT+ - lésbicas, gays, bissexuais e transexuais - num continente onde estes continuam a ser limitados em numerosos Estados.
Dos 54 países africanos, apenas cerca de 20 não criminalizam atualmente as relações entre pessoas do mesmo sexo.