A Médicos Sem Fronteiras (MSF) alertou hoje que os cortes no financiamento estão "a provocar o colapso do sistema de saúde" no Sudão, obrigando ao encerramento de várias clínicas e deixando milhões de pessoas sem cuidados de saúde.
"No meio de uma guerra brutal que continua e de uma crise humanitária catastrófica, a população do Sudão enfrenta um acesso reduzido aos cuidados de saúde", declarou a organização num comunicado, salientando que "as instalações em todo o país" estão a fechar devido ao "impacto dos cortes generalizados e históricos no financiamento da ajuda internacional".
A MSF alertou também que a redução do financiamento "está a privar as pessoas de cuidados que salvam vidas e a levar os poucos hospitais restantes ao limite".
Segundo a organização, os Governos e os doadores institucionais devem proteger as ajudas económicas aos serviços de saúde essenciais no Sudão e disponibilizar um financiamento para impedir que as unidades de saúde, que correm o risco de fechar, se mantenham ativas.
"Com a retirada das organizações humanitárias, as clínicas locais ficam sem os fundos ou medicamentos necessários para funcionar", lê-se na nota.
Entre janeiro e abril, as admissões nas unidades apoiadas pela MSF em Zalingei e Rokero, no Darfur Central, aumentaram 22,5% face ao mesmo período no ano de 2025, de acordo com os dados da organização.
Para a MSF, "a situação deteriorou-se ainda mais, uma vez que só em maio 45 centros de cuidados de saúde gerais no Darfur Central deixaram de receber apoio, devido à falta de financiamento da organização que lhes fornecia recursos".
O chefe da Missão da MSF no Sudão, Muhammad Ibrahim, declarou que a guerra está a aumentar as necessidades do país africano, sendo que os cortes no financiamento estão a reduzir a ajuda.
"O trabalho da MSF no Sudão é financiado por fundos privados (...). Os doadores devem proteger os serviços de saúde essenciais e fornecer financiamento sustentável e flexível às organizações que dele dependem", defendeu.
No documento, a instituição relatou que no campo de Tanedba, localizado no estado de Gedaref (Este), que acolhe mais de 18 mil refugiados, a saída de uma organização humanitária, em junho, resultou no fecho de enfermarias de maternidade e cirúrgicas, tendo como consequência a deslocação de mulheres grávidas até à cidade mais próxima, que fica a três horas de viagem.
A MSF interveio e vai gerir o serviço de urgências local até ao final de 2026 neste campo de refugiados.
Já no campo de Um Rakuba, que acolhe cerca de 17 mil refugiados, de 35 organizações humanitárias que trabalhavam no local restam menos 10, exemplificou a instituição para mostrar o impacto da redução do financiamento.
"Os cortes aqui vão muito além dos cuidados de saúde. As rações alimentares estão a diminuir e os programas de proteção estão a ser desmantelados, retirando as últimas redes de segurança e deixando os refugiados completamente desprotegidos", disse o gestor de Assuntos Humanitários da MSF, Fabrizio Locuratolo.
Apesar de os Estados Unidos e Governos europeus continuarem a apoiar o Sudão através de agências como o Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), o fim das subvenções da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) em junho e os cortes de financiamento europeus forçaram o encerramento de várias unidades de saúde no país africano.
Estes cortes agravam uma crise humanitária grave, onde 19,5 milhões de pessoas enfrentam fome e 825 mil crianças sofrem de desnutrição aguda grave, enquanto o plano de resposta das Nações Unidas conta com apenas 41% do financiamento necessário, segundo a MSF.
O conflito, que eclodiu em 15 de abril de 2023 entre o exército e as Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês), provocou a morte de dezenas de milhares de pessoas e obrigou cerca de 14 milhões a fugir das suas casas, transformando o Sudão no cenário da pior crise de deslocados do planeta, segundo dados da ONU.