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A resiliência de um país "não se decreta, constrói-se" com toda a sociedade - Gouveia e Melo

Lusa
02-07-2026 17:23h

O almirante Gouveia e Melo defendeu hoje que a resiliência de um país "não se decreta" constrói-se com toda a sociedade, empresas, universidades, municípios, voluntários, associações e cidadãos.

“A resiliência não se decreta, se não era fácil. Constrói-se”, disse Gouveia e Melo numa palestra integrada na CNN Portugal Summit subordinada ao tema "Resiliência da Saúde perante Emergências Complexas", organizada em conjunto com a Egas Moniz School of Health & Science, em Almada.

Para o antigo chefe de Estado Maior da Armada e coordenador do processo de vacinação durante a pandemia covid-19, é preciso criar uma “verdadeira estratégia nacional de resiliência para todas as emergências complexas” e uma cultura de confiança entre cidadãos e instituições, treinar regularmente a sociedade e não só os profissionais, ter um sistema que aprenda a falar entre si antes da crise e não durante e desenvolver a capacidade tecnológica nacional em comunicações, satélites, drones, robótica, inteligência artificial e cibersegurança.

Gouveia e Melo salientou que o mundo mudou muito e que as crises deixaram de vir uma de cada vez, “veem em grupo”.

“O incêndio destrói uma torre de comunicação e pode provocar um apagão. A pandemia paralisa cadeias logísticas globais. Uma guerra a milhares de quilómetros dispara o preço da energia, da comida, dos medicamentos e empurra pessoas para as nossas fronteiras. As alterações climáticas multiplicam a frequência destes fenómenos e a desinformação amplifica tudo em tempo real para milhões de ecrãs. Vivemos na era das emergências complexas, emergências que já não têm uma causa, têm uma cadeia de causa”, disse.

Por isso considera que a pergunta que Portugal deve fazer “já não é como respondemos, é como construímos uma sociedade capaz de continuar a funcionar quando tudo parece falhar ao mesmo tempo”.

“Essa é a definição moderna de resiliência”, disse advogando a necessidade de existir preparação, treino, liderança e confiança considerando que é a organização que realmente salva vidas.

O antigo chefe de Estado Maior da Armada defendeu ainda que é preciso derrubar duas ilusões que atravessam as organizações públicas e privadas da sociedade portuguesa: “A primeira é achar que um plano de emergência, uma vez escrito, nos deixa preparados” e “a segunda ilusão é acreditar que existe um centro capaz de controlar tudo. Não existe e quanto maior a crise, mais distribuída tem que ser a decisão”.

Os planos, adiantou, são importantes, mas o que realmente protege é construir organizações capazes de aprender enquanto executam.

“Arquivamo-lo numa gaveta, fazemos um exercício por ano e sentimo-nos seguros. Não estamos, porque uma emergência real nunca respeita o plano escrito. A realidade muda mais depressa do que qualquer documento”, sustentou.

Gouveia e Melo defende que em momentos críticos a simplicidade vence e a complexidade mata.

“Quanto mais complexo é um sistema, mais depressa colapsa sob pressão. Na vacinação, usámos uma regra simples, vacinar o maior número de pessoas possível, com segurança, o mais depressa possível, por faixas etárias. Quando toda a organização compreende com clareza qual é a missão, milhares de pequenas decisões, tomadas todos os dias por milhares de pessoas diferentes, tornam-se coerentes, sem que ninguém precise de autorizar uma a uma ou coordenar uma a uma”, frisou.

Isto é, no seu entender, o que separa uma organização resiliente de uma organização meramente disciplinada, defendendo também que é preciso que quem lidera crie confiança e que as estruturas se liguem entre elas.

A CNN Portugal Summit "Resiliência da Saúde perante Emergências Complexas", que decorre hoje na Egas Moniz School of Health & Science, no concelho de Almada, reúne líderes institucionais, decisores políticos, profissionais de saúde, investigadores, especialistas em proteção civil, tecnologia e gestão de risco para promover uma reflexão estratégica sobre os desafios que moldam o futuro da saúde e da resposta a emergências.

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