Os Médicos Sem Fronteiras (MSF) anunciaram hoje a transferência para o Ministério de Saúde moçambicano do primeiro projeto de prevenção do VIH de longa duração - o cabotegravir (CAB-LA) - para integrar e implementar na Beira, província de Sofala.
Numa nota, os MSF referem que a iniciativa ocorre na sequência dos resultados preliminares de um estudo de implementação regular do projeto pela organização, que disponibilizou o CAB-LA as pessoas em risco de contrair o Vírus de Imunodeficiência Humana (VIH), “incluindo homens que têm relações sexuais com homens, trabalhadores do sexo e pessoas transgénero”, cujo estudo deverá ser concluído em junho de 2026.
Explicam ainda que o CAB-LA é uma injeção administrada a cada dois meses que é “altamente eficaz” na prevenção da contaminação pelo VIH.
Os MSF garantem que farão uma doação de 675 doses de CAB-LA ao Ministério da Saúde (Misau) de Moçambique, no fim das demonstrações do programa, depois de um período de formação e apoio técnico até à transferência total da responsabilidade da sua implementação.
O gestor médico dos MSF na Beira (província de Sofala, centro) e co-investigador principal do estudo, Romão Sabuni, citado na nota, refere que esta transição apoia o desenvolvimento de um 'modelo de escolha' na prevenção do VIH em Moçambique, garantindo que as comunidades da Beira continuam a ter acesso a esta importante ferramenta de prevenção dentro do sistema público de saúde.
Segundo Romão Sabuni, existem vários métodos de prevenção do VIH, mas “nem todos são adequados para todas as pessoas ou estão disponíveis em todos os locais”, considerando importante oferecer o maior espetro possível de prevenção.
“O CAB-LA continua a ser uma ferramenta importante de transição. É encorajador ver que o Ministério da Saúde recomendou uma abordagem orientada para o futuro ao continuar a disponibilizar uma opção de prevenção do VIH de longa duração na Beira através do CAB-LA”, acrescenta Romão Sabuni.
Os Médicos Sem Fronteiras consideram que o CAB-LA tem um potencial de mudança significativo porque elimina a necessidade de tomar diariamente um comprimido de PREP (Profilaxia Pré-Exposição) para prevenir o VIH, algo que “muitas vezes é difícil para pessoas que se deslocam com frequência ou enfrentam preocupações com relação à privacidade ou estigma”.
Segundo os MFS, a injeção responde a estes desafios práticos “oferecendo às pessoas discrição e alternativas na forma como gerir a sua saúde”.
Para o assessor sénior para VIH da Unidade Médica da África Austral dos MSF e investigador principal do estudo, António Flores, o objetivo do estudo era demonstrar que esta ferramenta de prevenção poderia ser disponibilizada de forma eficaz a grupos que enfrentam maiores barreiras no acesso aos cuidados de saúde.
“Os dados preliminares do estudo realizado na Beira mostram que o CAB-LA pode ser implementado com sucesso neste contexto e, na verdade, que as pessoas que utilizam o CAB-LA têm pelo menos o dobro da probabilidade de continuar a usar [a prevenção] quando comparadas com as que utilizam PrEP oral, o que significa que permanecem protegidos contra o VIH por mais tempo”, defendeu.
Os MSF consideram a lenacapavir (antirretroviral injetável)como a única forma alternativa de PrEP injetável de longa duração atualmente existente, recordando que uma quantidade relativamente limitada de lenacapavir foi destinada a Moçambique através de um acordo entre o fabricante do medicamento (Gilead Sciences), o PEPFAR e o Fundo Global, mas a cidade da Beira não fez parte do primeiro grupo de locais selecionados para a implementação do medicamento.
“Assim, a adoção do CAB-LA pelo Ministério da Saúde significa que uma forma de PrEP injetável de longa duração continuará disponível na região”, asseguram os MSF.