O diretor do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT) classificou hoje o surto de Ébola na República Democrática do Congo como emergência de saúde pública, mas tranquiliza Portugal e Angola devido ao isolamento geográfico do foco epidémico.
Em declarações à agência Lusa, o diretor do IHMT da Universidade Nova de Lisboa, Filomeno Fortes, defendeu que se está perante uma situação de emergência em saúde pública, mas que o vírus pode ser controlado, salientando que, em termos geográficos, Angola é um dos países que neste momento não apresenta "maior risco (...) porque o ponto focal dos casos está mais junto do sul do Sudão, do Uganda, e com algum risco para o Ruanda".
Para Filomeno Fortes, o aumento da propagação do vírus do Ébola deve-se ao facto de ser "uma zona de grande instabilidade social, económica e sanitária", onde existem cerca de 250 mil pessoas deslocadas.
"Talvez haja algum cuidado a nível internacional em não se admitir que estamos a falar de uma epidemia que está localizada efetivamente numa zona de grande instabilidade social por causa destes conflitos", acrescentou.
O especialista, que tem experiência com um vírus similar, o Marbrurg, destacou também o aspeto cultural como um dos fatores, explicando que as famílias "tem tendência a levar o cadáver para casa até ser enterrado", sendo que as autoridades recomendam o enterro em 24 horas no máximo.
"Do ponto de vista cultural, isto em África é difícil controlar. E ainda ontem [quinta-feira] tivemos esta experiência porque a população atacou um centro, porque queriam recuperar um cadáver", referiu.
Na região da República Democrática do Congo (RDCongo) "a assistência médica está fragilizada, não existem infraestruturas e a capacidade de diagnóstico deste vírus também é muito fraca", apontou o diretor do IHMT.
"O outro ponto fundamental é que os Estados Unidos, com a sua política atual de retirarem os apoios aos vários países, incluindo a USAID [Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional], deixou a República Democrática do Congo, à semelhança de outros países, sem capacidade de resposta para este tipo de situação" destacou.
Questionado se o vírus poderia propagar-se para a Europa, sendo Portugal uma das portas de entrada, o professor disse acreditar que a "expansão do vírus é muito menor" e que está limitada devido à forma como este é transmitido.
"Com Angola, essa possibilidade é muito remota, dificilmente a população da República Democrática do Congo consegue chegar a Angola, vindo de uma situação destas, e apanhar um voo para vir para a Europa", disse, acrescentando que o país lusófono tem muita experiência no controlo de focos.
O professor salientou que deve separar-se os casos que são confirmados dos casos suspeitos, pois não dão a noção da realidade.
Segundo o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, as mortes suspeitas de Ébola na RDCongo ascendem a 177 e os casos a 750.
De acordo com as autoridades, o vírus provavelmente começou a circular na província de Ituri há dois meses e espalhou-se para as províncias orientais de Kivu do Norte e Kivu do Sul, ambos territórios envolvidos num conflito entre o exército congolês e grupos armados.
Além da RDCongo, o Uganda confirmou dois casos e o Sudão do Sul está a realizar testes laboratoriais para confirmar um caso suspeito de Ébola relatado pelas autoridades no estado de Equatória Ocidental, perto da fronteira com a República Democrática do Congo.
A RDCongo é regularmente afetada por epidemias do vírus Ébola, que se transmite através do contacto direto com sangue ou outros fluidos corporais de pessoas infetadas ou animais infetados e provoca febre hemorrágica grave, dores musculares, fraqueza, dores de cabeça, irritação da garganta, febre, vómitos, diarreia e hemorragias internas.