A Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos (APCP) lançou hoje uma petição que exige reforço urgente neste nível de cuidados, recordando as 70 a 85 mil pessoas que morrem todos os anos sem acesso a estes cuidados.
“A elas, juntam-se ainda milhares de crianças e jovens com doenças complexas que beneficiariam deste acompanhamento especializado”, recordam os signatários, apontando as 150 mil pessoas que vivem em Portugal com sofrimento associado a doença grave progressiva e incurável.
Os promotores da petição pública lançada hoje de manhã sublinham que os cuidados paliativos “não são um luxo”, mas sim um “direito fundamental”, centrado na qualidade de vida, alívio do sofrimento e no apoio à pessoa e à sua família “nos momentos de maior vulnerabilidade”, e lembram que a resposta está “muito aquém das necessidades”.
Além do reforço urgente com a expansão das equipas comunitárias e intra-hospilarares de cuidados paliativos, pedem igualmente um reforço na Rede Nacional de Cuidados Paliativos, com mais camas e respostas especializadas para adultos e crianças.
Os signatários pedem ainda incentivos e condições de fixação para profissionais especializados, o reconhecimento oficial da medicina paliativa como especialidade médica autónoma e o ”investimento estruturado” na formação dos profissionais de saúde neste tipo de cuidados.
Segundo as recomendações europeias, Portugal precisaria de mais de 100 equipas comunitárias e intra-hospitalares e cerca de 1.000 camas especializadas.
“A cobertura existente representa apenas uma fração desse valor, com fortes assimetrias territoriais e falta de respostas adequadas em várias regiões do país”, lembram os promotores da petição, que alertam para o facto de se confundirem muitas vezes respostas distintas, que não substituem camas especializadas de cuidados paliativos em hospitais de agudos.
Num país cada vez mais envelhecido e “com crescente complexidade clínica e social”, esta resposta “não pode continuar a ser adiada”, consideram, lembrando que as consequências deste adiamento: sofrimento evitável, famílias sobrecarregadas, internamentos desnecessários e perda de dignidade no fim de vida.
“Cuidar até ao fim não é um privilégio. É uma responsabilidade coletiva”, insistem.
Em fevereiro, a APCP veio alertar para as conclusões do relatório da Entidade Reguladora da Saúde (ERS) sobre a Rede Nacional de Cuidados Paliativos (RNCP), divulgado em março, considerando que as informações tornadas públicas exigem ao Governo a tomada de medidas estruturais imediatas.
Segundo a ERS, mais de metade (53%) dos utentes referenciados para cuidados paliativos no Serviço Nacional de Saúde em 2024 morreram à espera de vaga, mais do que nos dois anos anteriores (47,5% em 2023 e 48% em 2022).
Na altura, a APCP disse que os dados do relatório da ERS confirmam falhas estruturais graves no acesso, na cobertura territorial e na capacidade de resposta do sistema.
Um mês depois, numa carta enviada à ministra da Saúde, os profissionais da área dos cuidados paliativos apontaram a "falta de rumo" na gestão destes cuidados e pediram a nomeação urgente da comissão nacional, aguardada há um ano, alertando que se sentiam desamparados.
Já no final de março, após a publicação pela Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde do Plano Estratégico de Cuidados Paliativos para o biénio 2025-2026, a APCP veio criticar o documento, considerando que a ausência de metas, cronogramas e indicadores colocava em causa a sua execução.