O Governo moçambicano criou hoje uma comissão para estudar uma alegada magia que atrofia órgãos genitais, pedindo o fim da divulgação de "boatos e desinformações" sobre estes casos, referindo não haver evidência científica da existência destas superstições.
Em declarações aos jornalistas no final de uma sessão do Conselho de Ministros, o porta-voz do órgão, Inocêncio Impissa, disse que a comissão vai estudar a origem do fenómeno e as suas causas, indicando que o executivo quer também recorrer à academia para explicar estes casos.
Segundo Impissa, o Governo está preocupado com a onda de boatos e desinformação sobre a alegada superstição de encolhimento de órgãos genitais, quando pelo menos 11 pessoas já morreram por agressões, acusadas dessas práticas.
“O Governo apela aos moçambicanos para se absterem da difusão de informações sem verificação, principalmente nas redes sociais, dado a sua repercussão apressada, o que tem propagado onda de boatos e desinformação. Não há até aqui evidência científica de existência de tal fenómeno, tendo sido instadas as autoridades de saúde e de segurança pública, junto de todas as forças vivas da sociedade, a aprofundar estes fenómenos”, disse o porta-voz do executivo.
O Governo quer que as autoridades das províncias de Nampula, Cabo Delgado, Niassa, no norte, e Zambézia, no centro, onde supostamente se registam esses casos, desencorajem as referidas mensagens de boatos que geram violência.
“O problema está instalado ao nível das comunidades, por isso que as pessoas têm sido agredidas, perseguidas também são da comunidade, então, desde logo, este problema não é só do Governo, é um problema social, por isso que o apelo feito é extensivo, não se exclui a ninguém, para que não se possa colocar mais em causa vidas das pessoas por causa de um boato”, disse Impissa, pedindo o fim da violência nas comunidades face à inexistência de evidências científicas sobre os referidos casos.
Na segunda-feira, as autoridades anunciaram que pelo menos 11 pessoas morreram por agressões físicas em três províncias de Moçambique, na sequência de superstições de alegada magia que atrofia órgãos genitais a partir de um toque.
Os óbitos ocorreram nas províncias de Nampula (02) e Cabo Delgado (05), no norte de Moçambique, e na província da Zambézia (04), no centro do país.
Em causa estão superstições que correm, desde 18 de abril, em Cabo Delgado, que se espalharam pelas restantes províncias e nas redes sociais, sobre alegado atrofiamento, encolhimento e até desaparecimento de órgãos genitais, principalmente masculinos, a partir de um toque.
Em Nampula, as superstições causaram dois óbitos e oito feridos por agressão física, em 16 casos de desinformação registados entre quarta-feira e domingo, em alegações de magia negra nos distritos de Eráti e Monapo, com um total de 24 detidos por desinformação e incitamento à desobediência coletiva, conforme informação das autoridades policiais.
Em Cabo Delgado, as superstições causaram a morte de cinco pessoas nos distritos de Mocímboa da Praia (01), Ancuabe (02), Montepuez (01) e Metuge (01), além do ferimento de outras 20, todas vítimas de agressão física, com a polícia a adiantar que já foram detidas 25 pessoas e lavrados nove autos.
Já na Zambézia, a Lusa noticiou, no domingo, que pelo menos quatro pessoas morreram após a propagação das superstições, segundo Miguel Félix, chefe do posto administrativo de Macuse, onde ocorreram os incidentes.
As vítimas foram linchadas e carbonizadas, num ambiente de pânico instalado após a difusão de boatos de que um aperto de mão poderia provocar o encolhimento dos órgãos genitais, situação que obrigou à intervenção da polícia.
A Polícia da República de Moçambique pede que a população denuncie os “agitadores” sob o risco de o fenómeno causar a paralisação de serviços, referindo que há forças operativas no terreno em prontidão, principalmente em locais de maior aglomerado.