Os cortes na ajuda internacional, principalmente dos Estados Unidos, obrigaram a uma redução drástica da distribuição de vacinas contra a malária em África, ameaçando "dezenas de milhares de vidas de crianças", disse hoje a diretora do programa Gavi.
Esta aliança de vacinas Gavi reúne doadores públicos e privados para ajudar os países em desenvolvimento a terem acesso a vacinas a preços acessíveis, tendo contribuído desde 2000 para diminuir para metade a mortalidade infantil em 78 países.
Os Estados Unidos, que contribuíram com quase um quarto do orçamento, retiraram 1,58 mil milhões de dólares (1,35 mil milhões de euros) de financiamento no ano passado, sob a liderança do secretário para a Saúde, Robert Kennedy Jr., conhecido pelas suas posições céticas em relação às vacinas.
"O nosso programa de malária sofreu os cortes mais significativos", disse a diretora executiva da Gavi, Sania Nishtar, à agência de notícias France-Presse, por telefone, a partir do Ruanda.
A Gavi apoia a distribuição da vacina contra a malária em 25 países africanos, ajudando a combater esta doença que causa cerca de 600 mil mortes por ano em África, principalmente entre crianças.
A meta de atingir 85% de cobertura nos países visados até 2030 foi entretanto reduzida para 70%, indicou Nishtar.
O impacto dos cortes "irá provavelmente resultar na perda de dezenas de milhares de vidas de crianças", afirmou. A Gavi estimou que esta implementação evitaria 180.000 mortes durante este período.
"Se já viu uma criança hospitalizada a sofrer de convulsões relacionadas com a malária, sabe o que isso significa", acrescentou a diretora executiva da Gavi. "É uma cena horrível", concluiu.
Sania Nishtar falou ainda das dificuldades encontradas no desenvolvimento da produção de vacinas em África — uma questão que se colocou durante a pandemia de covid-19, quando os países desenvolvidos reservaram grande parte das doses para si.
Em 2024, a Gavi anunciou um programa de subsídios de mil milhões de dólares (850 milhões de euros) para ajudar os futuros fabricantes de vacinas africanos a iniciarem atividade. Contudo, 18 meses depois, "nenhum dos fabricantes conseguiu receber um subsídio até à data", observou a organização.