Quase 40% menos pessoas receberam um medicamento para ajudar a prevenir a infeção por VIH em 2025 face ao ano anterior, à medida que os cortes no financiamento da ajuda global afetaram particularmente os serviços de prevenção, revelaram dados preliminares apresentados pela UNAIDS na sexta-feira.
Em 62 países, menos 38% de pessoas receberam profilaxia pré-exposição, ou PrEP, pelo menos uma vez em 2025 em comparação com 2024, afirmou a agência. Isto representa uma diminuição de 1,2 milhões de pessoas — de 3,3 milhões para 2,1 milhões — em países como a Nigéria, Camarões e Uganda.
O financiamento para preservativos, outra ferramenta de prevenção, caiu mais de 90% em alguns países, acrescenta o relatório.
“Estamos a atravessar talvez a mais grave perturbação dos serviços de VIH desde o início da resposta ao VIH”, afirmou Winnie Byanyima, diretora da UNAIDS. “Não podemos ficar aqui a pensar que o impacto não é assim tão dramático.”
AUMENTO DAS INFEÇÕES
Segundo Byanyima, os cortes no financiamento, combinados com uma crescente contestação aos direitos de populações-chave — nomeadamente pessoas LGBTQ —, contribuíram para a redução do acesso, o que levará a um aumento de novas infeções e mortes nos próximos anos, caso não haja intervenção.
Em 2025, as novas infeções diminuíram ligeiramente face a 2024, cerca de 100 mil, totalizando 1,2 milhões, de acordo com o relatório. No entanto, os testes ao VIH caíram 22% em alguns países com elevada incidência, pelo que o panorama completo permanece incerto, acrescentou Byanyima.
Por outro lado, o número de pessoas em tratamento aumentou 2,7% em termos homólogos, com 32,1 milhões de pessoas a tomar medicamentos antirretrovirais até dezembro de 2025.
Este valor ficou ligeiramente abaixo dos aumentos médios anuais anteriores, de cerca de 4%, segundo a UNAIDS, mas também indica que países e comunidades conseguiram compensar parcialmente as falhas no tratamento e evitar o cenário mais grave previsto quando o financiamento diminuiu. No entanto, os dados mostram que não conseguiram responder da mesma forma aos cortes na prevenção.
O financiamento interno para combater o VIH aumentou em vários países pela primeira vez desde a COVID-19, acrescenta o relatório, embora a agência tenha alertado para o encerramento de um grande número de organizações comunitárias que constituem a base da resposta e que dependem em grande medida da ajuda internacional.
A UNAIDS revelou estes dados antes de uma reunião de alto nível sobre VIH/SIDA nas Nações Unidas, em Nova Iorque, ainda este mês, apelando à solidariedade global. No entanto, a própria agência também enfrenta desafios quanto ao seu futuro, depois de a ONU ter proposto o seu encerramento em 2026 para fazer face à sua própria crise de financiamento.
Byanyima afirmou que está em curso uma “transformação” da agência e que um relatório final será apresentado em outubro.
“O que é certo é que as Nações Unidas não abandonarão o seu papel de liderança na resposta global”, afirmou.