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São João alerta para “dispersão de recursos” com criação de novos centros de cirurgia cardíaca

LUSA
19-02-2026 19:44h

O diretor do serviço de Cirurgia Cardiotorácica da ULS São João, no Porto, alertou hoje para a “dispersão comprometedora de recursos humanos” que a criação de um novo centro de referência em cirurgia cardíaca na região Norte pode acarretar.

“A abertura de um novo centro pode comprometer seriamente o funcionamento dos centros atualmente em funcionamento, sendo certo que, se há disponibilidade financeira para investir nesta área, acho que é muito mais custo efetivo investir nos centros já existentes”, disse Adelino Leite Moreira, em declarações à agência Lusa.

Garantindo que esta opinião “não visa as ambições de nenhuma ULS em particular”, o cirurgião cardiotorácico do Hospital de São João disse que abertura de novos centros cria uma “dispersão comprometedora de recursos humanos”.

“Não é por ser no sítio A, B, ou C. Mas agora abrimos um novo centro e vamos duplicar o número de pessoas de urgência de prevenção. Faz sentido? E repare-se na proximidade: Faz sentido ter 3 centros de prevenção com raio de 10 quilómetros com seis cirurgiões por noite e por dia na região do Porto?”, questionou.

Esta reação surge depois de hoje o Diário de Notícias (DN) ter noticiado que quatro hospitais do Norte com serviços de cardiologia subscrevem uma carta dirigida à ministra da Saúde, na qual alertam para a lista de espera de doentes com problemas cardíacos a necessitar de cirurgia ou de implantação da válvula da aórtica.

De acordo com o jornal, subscreveram esta carta os serviços de cardiologia da ULS Santo António, no Porto, a do Tâmega e Sousa, que abrange 11 municípios, a ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro, com sede em Vila Real, e a que gere o Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos.

À ULS Santo António é atribuída a ambição de criar um centro de referência desta área, enquanto o serviço de cardiologia da ULS Tâmega e Sousa já esclareceu que não tem essa pretensão mas subscreve a carta para promover uma reflexão global sobre o tema e o diretor do serviço de cardiologia da ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro (ULSTMAD) admitiu que é ambição desta unidade realizar intervenções cardíacas percutâneas, mas garantiu não estar em causa o esvaziamento dos centros de cirurgia cardíaca existentes.

Para o diretor do serviço de Cirurgia Cardiotorácica da ULS São João, unidade onde existe um dos centros de referência do Norte, dado que as doenças cardiovasculares continuam a ser, em todo o mundo, a principal causa de morte, estas devem “receber toda a atenção”, mas o reforço da rede aconteceu já com a criação recente de um centro de referência em Braga.

“Esta rede de referenciação foi definida em 2023, depois de um trabalho exaustivo, baseado em dados efetivos, por uma comissão que se debruçou muito profissionalmente sobre o assunto, E entendeu-se que se justificava um novo centro, que abriu recentemente em Braga. A abertura desse novo centro, pelos números, pela realidade dos doentes que temos, pelas referenciações que temos, será capaz de responder às necessidades do Norte”, disse Adelino Leite Moreira.

Aberto há cerca de dois meses, o centro de referência de Braga está, disse o diretor do São João, com alguma escassez de recursos humanos nesta área, pelo que “está a carburar”, trabalhando a 20% da sua capacidade.

“No dia em que estiver na sua plenitude, poderá operar mais do que os doentes que neste momento existem em lista de espera. Portanto, eu acho que provavelmente, a prazo, e diria que até ao final do ano, no início do próximo, isso acontecerá”, disse.

Adelino Leite Moreira alertou que se este prazo não se concretizar será por escassez de recursos humanos e contou que para que em Braga abrisse um centro de referência o São João permitiu a mobilidade de dois cirurgiões seniores.

“A saída de mais um que fosse vai comprometer a nossa capacidade de resposta. Um centro como o nosso, que é o com maior movimento da Península Ibérica, tem vindo a crescer paulatinamente todos os anos. Só no último ano, apesar de termos cedido dois cirurgiões seniores, conseguimos aumentar em 6% o número de doentes operados”, descreveu.

Insistindo que vê como mais eficiente “acarinhar e apostar no novo centro e reforçar os centros existentes”, Adelino Leite Moreira acrescentou, ainda, que a lista de espera nesta área tem vindo a diminuir.

Também à Lusa, o diretor do serviço de cirurgia cardiotorácica da ULS Gaia/Espinho, onde existe um outro centro de referência desta área, alertou hoje que a abertura de um terceiro centro na região do Porto e um quarto no Norte, nomeadamente na ULS Santo António, no Porto, “amputaria capacidade aos centros existentes”.

A agência Lusa solicitou esclarecimentos a outros serviços de cardiologia de ULS da região Norte, bem como à Direção-Executiva do SNS e aguarda resposta.

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