As recentes tempestades que assolaram a região centro de Portugal Continental trouxeram de novo à baila a importância de prepararmos um kit de sobrevivência. O Canal S+ conversou com a pediatra Alexandra Luz, que nos explicou o que devemos ter “à mão” quando também existem crianças na família.
A médica começa por recordar que “a ideia do kit de sobrevivência não é propriamente uma ideia nova, pois existe uma recomendação da União Europeia”. Basicamente, todos os cidadãos devem ter à sua disposição um conjunto de bens, que são essenciais e garantam a sobrevivência e o bem-estar básico de uma família pelo prazo de 72 horas, ou seja, três dias.
É absolutamente necessário que o kit inclua “alimentos, água, medicamentos, documentos, itens relacionados com a higiene, com o abrigo, com a comunicação e depois também muito importante no caso das crianças é o conforto emocional”.
A estimativa aponta que “devemos ter para cada pessoa do agregado familiar dois litros de água por dia, para crianças é mais fácil ter as garrafas de água mais pequenas, mais fáceis de manusear”.
Quanto aos alimentos, a pediatra Alexandra Luz sublinha que devem ser “de fácil conservação, de preparação muito rápida, que deem efetivamente energia às crianças, desde papas instantâneas, barras de cereais, as bolachas simples, as fórmulas dos bebés, os pacotes de leite, portanto, tudo isso deve ter um papel no nosso kit de sobrevivência com crianças”.
Depois, particularmente importante, a medicação, “qualquer medicação crónica deve ser salvaguardada, mas depois há aquela medicação que pode ser necessária, como no caso das crianças, os antipiréticos, analgésicos, a questão de ter um termómetro, pensos rápidos, desinfetante, soro fisiológico, quer para limpar quer para desobstruir narizes”.
Os itens variam consoante a idade das crianças, por isso, se forem bebés, Alexandra Luz recorda que não podemos esquecer as fraldas, mantendo a regra das 72 horas “assegurar fraldas suficientes para este período, toalhitas de limpeza, o creme barreira. Depois, consoante a fonte de alimentação, podemos ter e devemos ter as tais fórmulas infantis e biberões limpos”.
O bem-estar e o conforto emocional das crianças também entram no kit de sobrevivência, e a médica pediatra explica o que se deve colocar.
Outros itens básicos são uma lanterna, pilhas extra, uma powerbank carregada e um rádio, em caso de catástrofe, pode ser a única forma de obter informações relevantes. Alexandra Luz, a propósito da passagem da tempestade Kristin, recorda que “em Leiria, houve uma falha de comunicação geral e a única forma que se tinha de aceder à informação era através da rádio”.
Não esquecer uma cópia dos documentos mais importantes, protegida, “se possível, num saco impermeável, portanto, os cartões de cidadão, o boletim de saúde e o boletim individual de saúde da criança. O ideal é ter também uma lista com alguns contactos de emergência. Eventualmente ter máscaras e gel desinfetante”.
Importante ainda, diz a médica pediatra, é “ir vendo o que ainda está em condições e aquilo que já não está” tendo em conta que os alimentos têm prazos de validade e que as pilhas até se podem gastar.
O conforto emocional não passa só pelos bens que colocamos no kit, mas também por fazê-los sentir seguros e protegidos, adequando a linguagem à faixa etária da criança, como refere Alexandra Luz.
As crianças mais velhas já têm outra percepção “e muitas vezes questionam como e porquê, e principalmente será que isto vai acontecer outra vez. É importante que se transmita uma sensação de segurança, por exemplo, a nossa construção em Portugal aguenta mais este tipo de catástrofes”. Igualmente importante é explicar às crianças “o papel dos alertas da proteção civil e das estruturas de suporte, como os bombeiros que eles vêem a passar na rua”.
Quando se trata de adolescentes, o diálogo pode ser mais profundo, fazendo sentido que sejam discutidas, como refere Alexandra Luz, “na sequência daquilo que são alterações climáticas que nós aparentemente vamos passar a ter, se calhar, e infelizmente com maior frequência”.
O medo de passar por outro episódio não pode condicionar a realidade das crianças, por isso, dar-lhes segurança passa também por revisitar o que deve ser feito, em caso de catástrofe.