O diretor do serviço de cirurgia cardiotorácica da ULS Gaia/Espinho alertou hoje que a abertura de um novo centro de cirurgia cardíaca na região Norte, nomeadamente na ULS Santo António, no Porto, “amputaria capacidade aos centros existentes”.
Em declarações à agência Lusa, Paulo Neves disse que “não existe no mercado um conjunto de profissionais em atividade que possam agora abrir um centro novo” e explicou: “Qualquer centro novo vai usar profissionais de centros existentes. Não estou só a falar de cirurgiões, estou a falar de todos os elementos que compõem a equipa multidisciplinar”.
“Reconheço que isso possa ser uma pretensão do Hospital de Santo António, nós estamos a amputar capacidade aos centros existentes”, disse o diretor do serviço de cirurgia cardiotorácica da ULS Gaia/Espinho.
Esta reação surge depois de hoje o Diário de Notícias (DN) ter noticiado que quatro hospitais do Norte com serviços de cardiologia subscrevem uma carta sobre o panorama na cirurgia cardíaca na região, missiva que será dirigida à ministra da Saúde, na qual alertam para a lista de espera de doentes com problemas cardíacos a necessitar de cirurgia ou de implantação da válvula da aórtica.
De acordo com o jornal, subscreveram esta carta os serviços de cardiologia da ULS Santo António, no Porto, a do Tâmega e Sousa, que abrange 11 municípios, a ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro, com sede em Vila Real, e a que gere o Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos.
À ULS Santo António é atribuída a ambição de vir a criar um centro de referência desta área, enquanto o serviço de cardiologia da ULS Tâmega e Sousa já esclareceu que não tem essa pretensão mas subscreve a carta para promover uma reflexão global sobre o tema.
Atualmente, doentes com estas características são referenciados para os dois centros de referência desta área: Unidade Local de Saúde (ULS) São João, no Porto, e ULS de Vila Nova de Gaia/Espinho.
“O objetivo do Santo António é fazer uma abertura de um centro de cirurgia cardíaca com profissionais da nossa instituição. Isso coloca-nos aqui um grave problema porque, naturalmente, temos o serviço dimensionado de uma forma e corremos sérios riscos de deixar de ter capacidade para produzir como produzimos e cumprir os requisitos técnicos que um serviço tem que ter, nomeadamente, dar resposta 24 horas por dia, sete dias por semana”, referiu Paulo Neves à Lusa.
Falando em “lógica de dispersão de recursos”, o diretor de Gaia apontou que “as normas internacionais falam precisamente do oposto, numa concentração de recursos, centros de grande volume, aumentar a qualidade e eficiência”.
Paulo Neves também criticou o modelo que diz ter tomado conhecimento por médicos da sua equipa que está a ser desenhado para o novo centro no Porto.
“O modelo de financiamento desse programa que está a ser equacionado no Hospital de Santo António preocupa-nos. Aqui temos profissionais que são contratados, têm as 40 horas que cumprem. Farão algumas extras? Seguramente, como quase todos os médicos, enquanto que no Hospital de Santo António está a ser equacionada a abertura de um centro de cirurgia cardíaca em regime de prestação de serviços. De um lado cirurgiões a fazer procedimentos complexos e a ganhar 20 e poucos euros à hora. Do outro cirurgiões a ganhar por procedimento, por ato, e a fazer procedimentos muito mais simples”, descreveu.
Apontando saber que, além de cirurgiões de Gaia, já foram contactados perfusionistas (profissionais de saúde especializados em operar a máquina de circulação extracorpórea e dispositivos de suporte cardiopulmonar), Paulo Neves considerou que este modelo cria “uma disrupção salarial muito grande”.
A agência Lusa contactou a ULS Santo António e aguarda resposta.
O DN descreve que os dois centros de referenciação (ULS São João e ULS Gaia/Espinho) têm de dar resposta aos seus próprios doentes e aos doentes dos quatro hospitais que subscrevem a carta e de outros da região Norte.
No ano passado, “o Santo António referenciou mais de 250 doentes, cerca de 190 para cirurgia e os restantes para implantação de válvulas”, disse o diretor de serviço de Cardiologia do Hospital Santo António, André Luz.
O diretor, que foi o promotor da carta, refere que “há hospitais que fazem o seu trabalho meritório, mas que não estão a conseguir dar resposta no tempo adequado”.
“Enquanto há outros serviços, como o nosso, com infraestruturas e competências técnicas para se tornar um centro cirúrgico e de implantação da válvula da aórtica e que há mais de 10 anos aguarda autorização para o poder fazer”, refere .
Quanto à questão da lista de espera, o diretor do serviço de cirurgia cardiotorácica da ULS Gaia/Espinho referiu que a unidade reduziu, no último ano e meio, praticamente 40% a lista de espera, tendo nesta altura 170 doentes à espera, com uma média de espera de 2,3 meses.
“Está francamente bem equiparado com centros lá fora”, concluiu.
A agência Lusa solicitou esclarecimentos a outros serviços de cardiologia de ULS da região Norte, bem como à Direção-Executiva do SNS e aguarda resposta.