O presidente da associação ambientalista Zero considera que os efeitos das recentes depressões que assolam o país são “um preço muito elevado” sobre infraestruturas, cidades e florestas, que só será possível compensar corrigindo procedimentos e o ordenamento do território.
“É realmente difícil nós termos custos tão elevados para […] aprender em diversos campos, desde as infraestruturas até, obviamente, à gestão das bacias hidrográficas, à resiliência das cidades e, também, das florestas”, afirmou Francisco Ferreira, em declarações à Lusa.
Para o presidente da Zero - Associação Sistema Terrestre Sustentável, os danos provocados pela depressão Kristin, principalmente na zona Centro, seguida da Leonardo, são “um preço muito elevado”, só compensado se se aprender e corrigir, “de forma tecnicamente robusta e economicamente bem avaliada, as diferentes vertentes que foram afetadas” das “atividades incluindo, obviamente, do território”.
“No que diz respeito à floresta, curiosamente, uma primeira aprendizagem que nos parece clara é que as várias plantações de monoculturas dominantes que temos nas zonas atingidas foram claramente prejudicadas, quer o pinheiro bravo, quer o eucalipto”, salientou o também coordenador do Cense - Centro de Investigação Ambiental e de Sustentabilidade, da Universidade Nova de Lisboa.
Embora muitas outras espécies tenham sido afetadas, mostrou-se impressionado com “zonas de pinhal em que os troncos foram literalmente cortados ou as árvores tombaram”.
Nos eucaliptos, “o corte não foi tão evidente”, mas muitos ficaram inclinados e outros caíram.
“Houve também, e isso é verdade, vários casos de espécies autóctones que, face a esta tempestade, também sofreram os seus efeitos, principalmente aqui estamos a falar do vento em conjugação com as circunstâncias em que o solo também dava menos suporte à estrutura das árvores”, admitiu.
Numa primeira análise, para várias espécies autóctones, acautelando-se “o terreno em que se encontram, as pendentes em que foram plantadas” ter-se-á “uma maior resiliência do que as plantações de espécies únicas tradicionais” que, neste caso, “foram mais vulneráveis”.
Em relação ao ordenamento do território, “há determinados impactos que eram inevitáveis e que são também, em alguns casos, recorrentes”, como as cheias em “algumas zonas do país”, embora também se registem situações “muitíssimo menos habituais, como é o caso do Sado”.
Apesar de o rio Sado já antes ter provocado cheias em Alcácer do Sal, o dirigente associativo notou que, pela acumulação de águas e consequências em termos de deslizamento de terras e derrocadas, existe “um problema de gestão do solo, que agora foi claramente visível”.
“Temos zonas que não deveriam estar a ser ocupadas, com determinadas atividades, ou impermeabilizadas. Numa bacia hidrográfica tudo conta, mas é evidente que a ocupação de áreas de maior declive e os próprios incêndios que ocorreram nos últimos anos” têm vindo a fragilizar “um dos aspetos mais críticos do ponto de vista da importância dos ecossistemas e do território que é o solo”, apontou.
Pegando no exemplo de Setúbal, explicou que o Parque Urbano da Várzea está “completamente inundado”, mas salvou a cidade sadina “de cheias significativas agora”.
Destacou ainda a importância do Projeto Setúbal Verde, após anos de luta de várias associações ambientalistas, como a Quercus e também a Zero, para que a zona “fosse salvaguardada”, com bacias de retenção, apesar de alguns erros “dos últimos anos”.
Francisco Ferreira disse que os atuais eventos extremos fizeram-nos perceber “que danos podem surgir”, como “a vulnerabilidade” do fornecimento de eletricidade, as atividades agrícolas destruídas e a floresta, habitualmente mais danificada “pelos incêndios do que por tempestades”.
“Precisamos aqui de olhar do ponto de vista da resiliência e […] dos custos, o que é que tem sentido ou como é que tem sentido reconstruirmos e sermos muito rigorosos naquilo que são alertas fundamentais e cruciais”, nomeadamente associações de ambiente e “muitos especialistas em ordenamento de território”, defendeu.
Quanto aos efeitos das tempestades, principalmente na zona Centro, vamos ter uma floresta “mais fragilizada, quer porque o solo foi erodido, quer porque as árvores estarão debilitadas” e nos próximos anos se verá “quer em termos de crescimento de biomassa e de acumulação”, quer “de temperatura e precipitação”.
Acima de tudo, Francisco Ferreira preconizou como prioridade “garantir a segurança das zonas afetadas”, sejam florestais ou “urbanas com a presença de árvores”, para assegurar “a segurança das pessoas” e “dos bens”.