Um projeto da Universidade de Évora (UÉvora) vai estudar padrões e trajetórias associados à evolução de doenças crónicas no Alentejo, com a criação de “pacientes virtuais”, modelos computacionais construídos a partir de dados reais de saúde.
Em comunicado, a universidade alentejana explicou hoje que o projeto designa-se PROFILER — Perfis Clínicos, Terapêuticos e Evolutivos para a Gestão Personalizada e Preditiva de Doenças Crónicas no Alentejo.
A investigação, coordenada por Paulo Infante, investigador do Centro de Investigação em Matemática e Aplicações da UÉvora, arrancou no mês passado e vai decorrer até setembro de 2028, revelou hoje à agência Lusa fonte da academia.
Para a UÉvora, o projeto, que reúne investigadores de estatística, inteligência artificial, ciência de dados, medicina, demografia e gestão, em articulação com a Unidade Local de Saúde do Alentejo Central, “assume particular relevância no Alentejo, uma região marcada pelo envelhecimento e pela dispersão populacional”.
No âmbito da iniciativa, vão ser analisados dados de saúde de 2015 a 2025, para procurar “identificar padrões e trajetórias associados à evolução das doenças crónicas”.
“Serão estudadas pessoas com 55 ou mais anos, com especial atenção à diabetes, hipertensão arterial e obesidade, cruzando informação clínica, resultados laboratoriais, medicação, contactos com os cuidados de saúde, idas à urgência e internamentos”, precisou.
O PROFILER tem como ambição verificar se os dados produzidos hoje nos hospitais e centros de saúde poderão ajudar “a antecipar os problemas de saúde de amanhã”.
“A ideia parte de uma constatação simples: dois doentes com o mesmo diagnóstico podem ter riscos e necessidades muito diferentes”, assinalou a Universidade de Évora.
Uma pessoa com diabetes, por exemplo, pode apresentar doença renal, tomar medicação variada e recorrer frequentemente à urgência, enquanto outra com o mesmo diagnóstico pode manter uma trajetória clínica estável, comparou, notando que “é precisamente nestas diferenças que o PROFILER pretende atuar”.
“Através de métodos estatísticos e de inteligência artificial, os investigadores vão procurar identificar combinações de fatores associadas a diferentes trajetórias e riscos, como a probabilidade de uma ida à urgência ou de um internamento”, disse.
E, realçou a instituição, “uma das componentes mais inovadoras” do projeto passa pela criação dos denominados “pacientes virtuais”, ou seja, “modelos computacionais construídos a partir dos padrões observados nos dados reais”.
“Estes perfis permitirão simular diferentes cenários e explorar, em ambiente computacional, o que poderá acontecer perante diferentes estratégias terapêuticas, sem expor pessoas reais a qualquer risco”, explicou.
O coordenador Paulo Infante, citado no comunicado, alertou que “o diagnóstico é o mesmo”, mas “o risco e as necessidades podem não ser”.
O objetivo do estudo, frisou, “não é substituir o médico por um algoritmo, mas produzir conhecimento que permita aos profissionais disporem de mais informação e agir mais cedo”.
“Ao identificar diferentes perfis de risco, o PROFILER poderá contribuir, após validação científica e clínica, para um acompanhamento mais próximo de determinados grupos de doentes e para uma utilização mais eficiente dos recursos de saúde”, observou.
Além disso, o projeto vai apostar “em modelos explicáveis, procurando perceber não apenas que risco é identificado, mas quais os fatores que contribuem para esse risco”, afirmou a UÉvora.