Quase uma centena de crianças foram internadas por queimaduras este ano no Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, onde os casos aumentaram 35% face ao mesmo período de 2025, com os menores de quatro anos entre as principais vítimas.
Os dados foram avançados hoje à agência Lusa por Diogo Casal, coordenador do Serviço de Cirurgia Plástica e da Unidades de Queimados da ULS de São José, que integra o Hospital Dona Estefânia (HDE), a propósito da Semana Mundial das Queimaduras, que decorre até domingo.
De acordo com os dados da Unidade Funcional de Queimados do HDE, 68% dos 97 internamentos registados entre janeiro e outubro de 2026 envolveram crianças com menos de quatro anos e os líquidos quentes estiveram na origem de 85% das queimaduras.
“Tem havido queimaduras por contacto com líquidos quentes, superfícies quentes e a maior parte das vezes acontecem no contexto doméstico”, disse Diogo Casal, explicando que as crianças mais pequenas são as principais vítimas por ainda não terem maturidade para avaliar os perigos.
Acabam por envolver-se em situações de perigo, sem que os cuidadores se apercebam, disse, exemplificando com algumas situações como puxarem toalhas de mesa onde estão recipientes com líquidos quentes, fazendo-os cair sobre si, puxarem o pano da tábua de engomar, provocando a queda do ferro, assim como o contacto direto com placas térmicas do fogão ou do forno.
O médico alertou ainda para os acidentes com braseiras, lareiras, e água muito quente no banho. “Há pessoas que ainda aquecem a água quente em panelas e isso torna difícil moderar a temperatura da água e as crianças queimam-se às vezes de forma muito profunda”, advertiu.
Salientou ainda que estes acidentes podem acontecer em poucos segundos e, embora os pais se sintam frequentemente culpados, em alguns casos “é praticamente impossível prever o que vai acontecer”.
“Ninguém gosta de ver ninguém sofrer, muito menos crianças, e os pais ficam aflitíssimos quando veem os seus filhos a sofrer. Isto cria um clima muito especial, que nos obriga a proceder com muita cautela para que a criança fique bem o mais depressa possível e com o mínimo de sequelas físicas e psicológicas”, comentou.
Os internamentos tiveram uma duração mediana de 13 dias, com um máximo de 347 dias, sendo que as queimaduras mais extensas e profundas, nomeadamente as de terceiro grau, podem exigir várias intervenções cirúrgicas, incluindo desbridamentos, enxertos e retalhos, disse o médico.
Além das sequelas físicas, estas lesões podem ter consequências emocionais, psicológicas e sociais.
“As queimaduras muitas vezes fazem com que a criança fique desvalorizada socialmente, familiarmente, até em termos académicos. Por exemplo, na Austrália, viram que as crianças com queimaduras graves tinham o dobro da probabilidade de não cumprir a escolaridade obrigatória, relativamente a crianças sem queimaduras graves”, salientou, ressalvando que “não é um mecanismo causal”.
Apesar da complexidade de alguns casos, o responsável garantiu que a Unidade de Queimados tem conseguido dar resposta a todos os doentes que ali chegam, tendo registado, por vezes, até 12 crianças internadas em simultâneo.
O médico reforçou a importância de medidas de prevenção como manter fora do alcance das crianças os bicos do fogão, chaleiras, chávenas com líquidos quentes e ferros de engomar.
É também importante nunca deixar crianças pequenas sem supervisão junto de fontes de calor, proteger lareiras e aquecedores e manter fósforos e isqueiros guardados.
Na preparação do banho, colocar primeiro a água fria e só depois a quente, confirmando sempre a temperatura antes de colocar a criança na banheira.
Perante uma queimadura, a primeira medida é afastar a criança da fonte de calor e lavar a zona afetada abundantemente com água corrente, sem pressão, à temperatura ambiente ou ligeiramente fria, nunca gelada, durante pelo menos dez minutos.
Não se deve aplicar gelo, pasta de dentes, manteiga ou outros produtos caseiros, nem retirar peças de roupa ou objetos que estejam colados à pele.
As queimaduras extensas, provocadas por produtos químicos ou eletricidade, ou que envolvam a face, os genitais, as mãos, os pés ou grandes articulações, exigem avaliação médica num Serviço de Urgência.
“A palavra-chave é a prevenção. Tentar imaginar que tudo pode correr mal, para que tudo corra sempre bem”, rematou Diogo Casal.