O médico português Jaime Nina considerou à Lusa que existe possibilidade de a atual estirpe de Ébola que está a afetar a África Central chegar a Portugal, mas é pouco provável que isso aconteça.
"É possível. Não é provável. Ainda que haja uma comunidade portuguesa muito grande, talvez mais de 100 mil pessoas no Congo, eles estão no Congo Ocidental. Portanto, perto de Kinshasa [a capital], até por afinidades com Angola", justificou, em entrevista à Lusa, também divulgada no podcast Lusa Extra (https://www.lusa.pt//lusaextra).
Segundo o especialista, "há, pelo menos no papel, um sistema de encaminhamento dos casos. Em Lisboa, se for adulto, vai para o Hospital Curry Cabral, se for criança, vai para a Estefânia, que têm serviços de isolamento estrito".
Para o médico, Portugal prepara-se para estas eventuais situações, o problema pende-se mais com o perfil de pessoa potencialmente infetada e o tipo de cuidados que esta possa vir a ter.
Jaime Nina explicou que o Ébola é "uma família de vírus" e, até ao momento, "estão descritas seis espécies de Ébolas", que "são muito próximas de outros dois vírus, nomeadamente o Marburgo, que originou um grande surto no Norte de Angola há cerca de 20 anos".
Segundo o especialista em infecciologia e medicina tropical, estes vírus estão presentes em animais, particularmente morcegos, e são uma zoonose, ou seja, infeções que se transmitem ao ser humano.
A transmissão direta entre morcegos e humanos é rara, acrescentou, pois há pouco contacto entre si, por isso, o que, por norma, acontece é uma rede de contágios. Por exemplo: do morcego para um macaco e de um macaco para um humano.
Além disso, o Ébola tem a particularidade de se poder transmitir mesmo após a morte e, segundo o professor jubilado do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade NOVA de Lisboa (IHMT-NOVA), um dos eventos em África onde há grandes contágios são os enterros.
Apesar de não ser uma prática homogénea em todo o continente, em "muitas das etnias [africanas] é típico as pessoas despedirem-se do morto com um beijo. Ou com contactos muito próximos", referiu.
"Claro que se o morto estiver há uma semana já não está contagioso, mas se for no próprio dia ou no dia seguinte à morte, ele pode estar contagioso e muitas vezes está", acrescentou.
A República Democrática do Congo (RDCongo), nação vizinha de Angola, e epicentro, pelo menos desde maio, de uma epidemia de Ébola pela variante Bundibugyo já tinha registado mais de 10.000 infeções e perto de 5.000 mortos.
Sobre o que se sabe sobre esta estirpe, para a qual não há ainda vacina, Jaime Nina respondeu que "aparentemente, este já é o terceiro surto de Bundibugyo, ainda que de longe o maior. Aparentemente é muito semelhante no período de incubação, no quadro clínico, na taxa de mortalidade - ou seja, o número de mortes a dividir pelo número de casos - das outras".
O epicentro desta epidemia foi declarado em Ituri, no leste da RDCongo, precisamente uma zona assolada por outras doenças, como a cólera, a malária, o Monkeypox, mas também por conflitos armados que duram há dezenas de anos.
Considerando que esta pode ser uma crise dentro de outra crise, alertou para o possível negligenciamento de outras doenças e recordou um episódio passado: "Por exemplo, na experiência da África Ocidental, os Médicos Sem Fronteiras, em 2014, fizeram um estudo na Guiné-Conacri e na Serra Leoa, onde a maior causa de morte em ambos os países, no pico da epidemia, não foi o Ébola, foi a malária".