Uma tecnologia que permite em cerca de uma hora identificar a bactéria que está a provocar uma infeção e o antibiótico mais adequado para a combater foi desenvolvida por um consórcio liderado pela ALS, a partir de Tondela.
“Enquanto laboratório que presta serviços para variadas áreas, notámos a ausência de tecnologias ou de métodos que permitissem gerar informação de forma mais rápida, mais atempada, e que, por vezes, até pudesse ser descentralizada”, disse à agência Lusa o coordenador do projeto, Josué Carvalho.
O dispositivo InviDx®, desenvolvido pelo consórcio liderado pela ALS no âmbito do projeto SMARTgNOSTICS, será apresentado publicamente na quarta-feira, no Porto de Leixões, assinalando a transição desta tecnologia do laboratório para o limiar da aplicação clínica e da vigilância multissetorial da resistência antimicrobiana.
A ideia foi, segundo Josué Carvalho, desenvolver uma tecnologia que permitisse “fazer os testes no local onde estão as amostras, não ter que centralizar tudo nos laboratórios”.
“No caso das infeções urinárias, quase toda a prescrição de antibióticos é feita de forma empírica. O antibiótico é prescrito somente com a sintomatologia, com a observação do paciente, mas sem ter efetivamente um resultado da microbiologia”, referiu.
Desta forma, não se sabe “qual é a bactéria presente, se há ou não um perfil de resistência associado à bactéria que está presente e que está a causar infeção”.
A existir, essa informação “é muito lenta”, explicou o responsável, exemplificando que os resultados de uma urocultura (no caso das infeções urinárias) podem demorar 48 ou 72 horas.
“O que nos propusemos foi condensar toda a cadeia de geração de informação que é útil para os clínicos e a fazê-lo, no máximo, dentro de uma hora”, frisou.
O dispositivo InviDx® também permite mais descentralização: “Não carece de grande especialização dos técnicos para que possamos quase democratizar o acesso a esta informação”.
O primeiro estudo clínico com o InviDx® aprovado será realizado na Unidade Local de Saúde (ULS) da Cova da Beira, dedicado às infeções do trato urinário, onde os profissionais já foram treinados a usar a tecnologia.
“Mas estas tecnologias são agora escaláveis e transferíveis para outro tipo de infeções”, sublinhou Josué Carvalho.
No horizonte está já o desenvolvimento de “painéis para infeções respiratórias, para sépsis, para doenças sexualmente transmissíveis, sempre usando a mesma tecnologia subjacente, com as mesmas vantagens que já estão associadas ao teste de infeções urinárias”, e também em outras unidades de saúde.
Este ensaio clínico na ULS da Cova da Beira é parte do processo que poderá levar à autorização de comercialização para diagnóstico humano.
“Não obstante, a tecnologia já está disponível apenas para investigação (Research Use Only). Investigadores que têm organismos de vigilância, laboratórios de referência, já podem usar a tecnologia, não para diagnóstico humano, mas para gerar dados, por exemplo, para reportes de epidemiologia, vigilância”, explicou.
Uma das aplicações para esta tecnologia é “a vigilância da resistência aos antibióticos em águas residuais, algo que a União Europeia também tem vindo a trabalhar bastante”, acrescentou.
O consórcio liderado pela ALS integra também o International Iberian Nanotechnology Laboratory, a Universidade do Minho, o Instituto de Ciência e Inovação em Engenharia Mecânica e Engenharia Industrial, o Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência, a empresa Soluções, Projetos e Máquinas, a TecMinho, o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, o Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto e a multinacional Fresenius Kabi.