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Moçambicanas enfrentam espera por diagnóstico de cancro do colo do útero após anos de incertezas

Lusa
20-09-2026 08:22h

Mulheres moçambicanas de diferentes idades aguardam no Hospital Central de Nampula por respostas que podem mudar vidas, após de anos de dores, incertezas e desconhecimento sobre os sinais de alerta do cancro do colo do útero.

Os especialistas continuam a associar a doença ao diagnóstico tardio e à falta de rastreio regular. Entre elas está a professora Mariana Chissano. Aos 33 anos, residente no bairro de Marrere, é uma das mulheres que vive esta espera, com dúvidas sobre uma doença que mata anualmente 6.500 moçambicanas.

Chegou ao hospital, o maior do norte de Moçambique, depois de anos a conviver com dores abdominais que descreve como "mordeduras" e "picadas", sem compreender a origem do problema e sem que os tratamentos conseguissem explicar ou resolver completamente os sintomas.

Numa avaliação mais recente, os profissionais de saúde identificaram lesões no colo do útero.

"Fizeram um exame de 'Papa Nicolau'. Saiu o resultado e vim entregar para afirmar ou descartar o cancro do colo", conta Mariana à Lusa, enquanto aguarda por novos procedimentos para esclarecer a natureza das lesões.

Apesar do receio, a professora mantém a esperança de que o diagnóstico não confirme a doença.

"A minha expetativa é que possam descartar esse caso, espero que seja uma lesão normal", afirma, revelando que convive com as dores há cerca de 12 anos e que, durante esse período, procurou assistência médica em diferentes ocasiões, tendo recebido sobretudo medicamentos para aliviar os sintomas.

Mariana, mãe de três filhos, vive com o marido à distância, noutra província. A paciente afirma que o parceiro já conhece a situação e tem prestado apoio enquanto aguarda pelo esclarecimento médico.

A experiência da professora espelha uma realidade reconhecida pelos profissionais de saúde: muitas mulheres procuram ajuda apenas quando os sintomas se tornam persistentes ou incapacitantes, por desconhecimento da doença ou por não associarem os sinais à necessidade de exames de rastreio.

Com base na própria experiência, Mariana deixa um apelo a outras mulheres.

"Quando sentirem algumas dores anormais, devem recorrer sempre ao posto de saúde mais próximo, para que possam avaliar e saber o mais cedo possível o que está a acontecer. Não devem deixar para mais tarde, porque já será mais difícil", alerta.

Anifa Miguel, de 45 anos, natural de Angoche, também aguarda por resultados no hospital. Acompanhada por familiares, entrou no processo de investigação há cerca de um ano, depois de sucessivos episódios de doença que, segundo a família, a deixavam frequentemente acamada e incapaz de realizar atividades domésticas ou trabalhar.

"Ela sempre adoece mesmo. Fica na cama. Não consegue trabalhar", conta à Lusa Ana António, cunhada de Anifa.

A familiar diz viver entre a preocupação e a esperança, uma vez que ainda não sabe se a paciente será submetida a uma cirurgia.

"Eu espero que os médicos façam tudo por tudo para salvar ela. Para que ela possa voltar para a nossa casa", afirma.

É neste cenário de incerteza que o Hospital Central de Nampula recebeu uma equipa de médicos especializados em oncoginecologia, no âmbito de um programa que combina tratamento de pacientes com formação de profissionais locais.

De acordo com dados apresentados pelo hospital, 13 mulheres foram avaliadas no primeiro dia da missão, no início desta semana, tendo sido identificadas pacientes com indicação para cirurgia depois da análise clínica e dos exames realizados.

"No total, oito mulheres foram consideradas elegíveis para intervenção cirúrgica, sendo seis inicialmente programadas para cirurgia e outras duas previstas para os dias seguintes, depois da avaliação da extensão da doença e da programação do bloco operatório", afirmou Ciro Ismael, médico e representante do Ministério da Saúde.

A equipa médica sublinha, contudo, que a indicação cirúrgica depende do estágio e da dimensão do tumor, não sendo todas as pacientes com lesões ou diagnóstico de cancro candidatas a operações de grande porte.

O médico explica que a avaliação das pacientes passa pela biópsia e pela anatomia patológica, procedimentos que permitem determinar a extensão da doença.

"Primeiro fazer a biopsia dessas pacientes para ver o tamanho da doença. A anatomia patológica vai ditar a extensão da doença, o tamanho da doença. De acordo com o tamanho da doença, é que a gente faz um estadiamento", explica.

O programa decorre igualmente como uma oportunidade de capacitação de profissionais do Hospital Central de Nampula, com vista ao reforço da resposta local ao cancro ginecológico.

O médico especialista em ginecologia e obstetrícia no HCN, Pedro Ernesto, sublinhou que a existência de um médico em formação em oncoginecologia não significa que apenas um profissional esteja a ser capacitado.

Segundo o especialista, outros médicos em formação na área de ginecologia e obstetrícia também estão a receber treino em procedimentos cirúrgicos menos complexos, enquanto decorre a formação de um subespecialista que possa assumir a organização e realização de cirurgias oncológicas de maior complexidade.

O médico considerou a presença da equipa uma oportunidade para consolidar a capacidade local de tratamento, salientando que a província já dispõe de serviços de quimioterapia e de estruturas para o tratamento de casos oncológicos, mas que a cirurgia oncológica ginecológica continua a ser uma área em processo de fortalecimento através da formação especializada.

Os especialistas alertam ainda para o surgimento de casos em mulheres cada vez mais jovens, incluindo pacientes com 23 a 25 anos, contrariando a ideia de que o cancro do colo do útero afeta sobretudo mulheres de idade mais avançada.

A preocupação dos médicos vai além do tratamento dos casos já diagnosticados e a aposta na prevenção, no rastreio e na sensibilização para os sinais de alerta continua a ser apontada como um dos principais desafios, numa doença que, quando identificada precocemente, apresenta maiores possibilidades de tratamento e controlo.

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