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Gronelândia quer comissão de reconciliação após novo relatório sobre contraceção forçada

Lusa
29-08-2026 00:54h

A Gronelândia quer criar uma comissão de reconciliação, na sequência da apresentação das conclusões de especialistas sobre a campanha de contraceção forçada promovida pela Dinamarca, que não determinou se esta política poderia ser qualificada como 'genocídio'.

"Não podemos dizer, em nome do Naalakkersuisut [o governo da Gronelândia], se houve genocídio. É algo sobre o qual podemos continuar a debater", afirmou na sexta-feira numa conferência de imprensa Marianne Paviasen, ministra da Justiça do território autónomo do Reino da Dinamarca.

Para Jens-Frederik Nielsen, o chefe do executivo da Gronelândia, trata-se agora de "iniciar um processo de cura".

"Vamos criar uma comissão de reconciliação", acrescentou, desejando cooperar com Copenhaga sobre o assunto.

A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, saudou esta iniciativa.

"Uma comissão de reconciliação dá-nos a oportunidade de revisitar as áreas sombrias da nossa história comum, adotar um olhar crítico sobre elas e reconhecer o sofrimento que podem ter causado", escreveu num comunicado.

A comissão de especialistas, encarregada de determinar as implicações jurídicas desta contraceção forçada não apresentou conclusões unânimes.

No entanto, os seus membros concordaram que esta campanha poderia ter constituído várias violações dos direitos humanos e dos direitos dos povos indígenas.

Na sexta-feira foram apresentados dois relatórios, com quase seis meses de atraso em relação ao calendário inicial.

"Os dois relatórios são tão diferentes que um afirma que não houve genocídio de todo, enquanto o outro diz que poderia ter havido", disse a ministra Paviasen.

Entre os anos 1960 e 1990, mais de 4.000 mulheres da Gronelândia tiveram o dispositivo intrauterino colocado, maioritariamente sem o seu consentimento ou o dos pais, se fossem menores.

Para Henriette Berthelsen, uma das vítimas, as conclusões dos relatórios são de qualquer forma enviesadas pela ausência de Inuítes gronelandeses entre os especialistas.

"Para mim, não se trata apenas de História ou política, é o meu corpo, a minha vida e o meu direito à autodeterminação. E, mais uma vez, vejo que são outros que vão investigar e definir o que me foi feito e foi feito a outras mulheres Inuítes", lamentou a mulher, em declarações à agência de notícias francesa AFP durante a apresentação dos documentos.

Chamado na Gronelândia como o caso "anticonceção", a campanha atingiu sobretudo adolescentes de 12 anos, algumas das quais que nunca mais puderam ter filhos.

Na altura em que a imensa ilha ártica é ambicionada pelos Estados Unidos, Nuuk e Copenhaga cuidam das suas relações enquanto esclarecem vários episódios do passado: crianças adotadas sem o consentimento dos pais ou arrancadas às suas famílias, contraceção forçada, entre outros.

Na quinta-feira, o Parlamento dinamarquês deu luz verde à indemnização das vítimas destas contraceções forçadas, em conformidade com o que desejava a primeira-ministra da Dinamarca.

No ano passado, Frederiksen tinha oficialmente apresentado desculpas da Dinamarca à vítimas.

Mas a cobertura mediática do caso reacendeu traumas enterrados há décadas.

"Percebi tudo o que isso me custou, todas as hospitalizações, as operações, as formações perdidas e, sobretudo, essas dores que nunca tinha associado ao maldito DIU", confidenciou Kirstine Najârak Berthelsen.

"Estava tão bem escondido no meu subconsciente. (...) Tudo o que aconteceu aos outros ultrapassa a imaginação, se não se viveu pessoalmente", acrescentou.

No final de 1970, uma em cada duas gronelandesas em idade de procriar, ou seja, pelo menos 4.070 mulheres, recebeu um DIU, segundo um inquérito apresentado em setembro de 2025. Foi a intervenção de uma vítima e depois uma série de 'podcasts' em 2022 que revelaram ao grande público a existência desta campanha de contraceção.

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