SAÚDE QUE SE VÊ
Magnific

Projeto SUN promove empatia e combate violência sexual na adolescência

Lusa
02-08-2026 09:30h

O projeto SUN concluiu um inédito ensaio clínico em quatro escolas de Porto e Aveiro e ajudou mais de 200 jovens no combate a mitos sobre violência sexual e no aumento da empatia, ‘formando’ testemunhas para poderem intervir.

Segundo explica à Lusa a investigadora da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, Eunice Carmo, o projeto desenrola-se em 10 sessões com os alunos para os “preparar para intervir”, combatendo o sexismo, a desinformação e ideias preconcebidas sobre violência sexual e promovendo a empatia, com os mais novos a reportarem “maior consciência acerca dos assuntos trabalhados e autoeficácia para agir”.

Os alunos analisavam notícias e publicações nas redes sociais, discutiam vídeos e outros conteúdos, faziam ‘roleplay’ (interpretação de papéis em situações específicas) e outras atividades práticas em torno do tema.

Os investigadores Eunice Carmo, Bárbara Moreira e Patrício Costa, da Universidade do Porto, Nélio Brazão, da Universidade de Coimbra, e Joana Carvalho, da Universidade de Aveiro, criaram o primeiro programa de prevenção primária da violência sexual concebido para adolescentes em escolas portuguesas, intitulado SUN ('Stand Up Now against Sexual Violence', Ergue-te Agora contra a Violência sexual em tradução livre), propondo “uma intervenção ‘bystander’” com um ensaio clínico.

Aplicado em sala de aula, consiste em 10 sessões, de 50 a 60 minutos, trabalhando este tipo de intervenção, que “capacita quem testemunha uma situação de risco para intervir de forma segura”, ajudando a reconhecer situações de risco e desafiarem “as normas que permitem a tolerância da violência sexual”.

O trabalho, cujo protocolo foi publicado já este ano, articula-se com outros dois programas que trabalham em contornos similares mas noutras populações escolares, o MOON, dirigido a estudantes universitários e com alguns dos mesmos investigadores do SUN, disponível na plataforma digital NAU, e o CARE, da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, para crianças e jovens do pré-escolar ao secundário.

O ensaio clínico, com 213 adolescentes de escolas de Vila Nova de Gaia, Valongo, Ovar e Aveiro, seguiu-se a um primeiro piloto, com 79 alunos, tendo durado nove meses e com “elevada assiduidade” dos participantes, sendo os últimos dados recolhidos em novembro de 2025, e o protocolo publicado em maio.

Além de não terem provocado “efeitos adversos”, ou seja, o reforço de mitos ou a diminuição da empatia, os efeitos positivos “melhoraram na direção esperada”.

“É muito interessante porque é uma surpresa muito grande para eles ouvirem falar sobre temas da sexualidade de uma forma positiva. (...) Perceberem que estão a falar de igual para igual, que podem fazer piadas ou rir, fazer perguntas. Há esse processo gradual de irmos trabalhando, aos poucos, a desconstrução de mitos mais específicos”, conta Eunice Carmo.

Segundo a investigadora, este trabalho leva os adolescentes a “chegarem às conclusões por eles mesmos”, num processo guiado em vez de imposto, e ajuda a mitigar uma “lacuna” no currículo escolar que os próprios alunos apontam.

Depois do ‘feedback’ positivo de escolas e alunos, pretende-se que a continuidade desta abordagem seja “sustentável” e que complemente o currículo de educação sexual atual, em articulação com as autoridades relevantes.

Um dos resultados “mais interessantes” prende-se com a evolução mais acentuada dos rapazes em relação às raparigas na resposta ao programa, podendo refletir questões sobre educação marcada pelo género e do impacto da exposição, ou falta dela, à violência sexual.

“Acho que esta é a força da intervenção ‘bystander’, diferente das outras abordagens, dirigidas ou a pessoas com potencial de perpetração ou com maior vulnerabilidade à vitimação. Abordagens mais dirigidas a homens, por exemplo, criam normalmente um efeito de resistência. ‘Eu não sou agressor, não tenho de saber sobre isto’. No caso da vitimação, é um efeito muitas vezes traumatizante ou culpabilizador”, acrescenta a investigadora.

Segundo Eunice Carmo, com este trabalho há ganhos indiretos contra esta “epidemia” da violência sexual, que motiva uma resposta a partir de “um argumento de saúde pública”.

“É uma epidemia invisível, na maioria dos casos. Sabemos que a maioria dos casos acontecem entre pessoas parceiras, fora do olhar comum. Isso não inviabiliza que possamos continuar a ser responsáveis. Um dos mitos que esta abordagem quer desconstruir é a ideia de que não temos potencial de ser agressores ou vítimas. (...) Eu sou responsável por mim, acima de tudo, mas da mesma forma pelas outras pessoas”, afirma.

Responsabilizarmo-nos pelo que podemos ver na rua ou numa escola ou no trabalho é um dos objetivos, e ter ferramentas para avaliar como intervir: apoiar a vítima, falar com o potencial agressor, chamar as autoridades, juntar outras pessoas para que possam ajudar, mas sempre com a segurança pessoal em primeiro lugar, como num desastre aéreo em que asseguramos a máscara de oxigénio própria antes dos filhos, argumenta a investigadora.

MAIS NOTÍCIAS