Os profissionais de saúde moçambicanos, em greve desde janeiro, anunciaram hoje a continuação da paralisação por mais 30 dias, exigindo um plano emergencial para o setor e ameaçando avançar com uma manifestação nacional no final desse período.
"Sim, foi prorrogada por 30 dias", disse hoje à Lusa Anselmo Muchave, presidente da Associação dos Profissionais de Saúde Unidos e Solidários de Moçambique (APSUSM).
Desde 16 de janeiro que a APSUSM tem convocado paralisações de 30 dias, sucessivamente renovadas, em reivindicação pelo pagamento integral do 13.º salário de 2025 e por melhores condições de trabalho e pelo fornecimento regular de material médico-cirúrgico, embora os efeitos da greve não sejam claros, com o Governo a afirmar desconhecer o seu impacto nas unidades sanitárias.
Segundo Muchave, a decisão foi tomada após a associação considerar insuficientes as respostas do Governo às reivindicações apresentadas pelos profissionais de saúde, que exigem um plano emergencial para garantir condições básicas para o funcionamento das unidades sanitárias.
A APSUSM voltou a denunciar hoje o "colapso" do Sistema Nacional de Saúde (SNS), alegando que a falta de medicamentos e insumos afeta hospitais em todo o país e compromete o atendimento aos pacientes.
"Há dois meses o Governo pediu provas, em 24 horas a APSUSM entregou: medicamentos fora do prazo e a falta crónica de medicamentos a nível nacional. Temos orgulho em dizer que temos provas que o Governo está a mandar retirar medicamentos fora do prazo", disse o responsável pela associação, que diz representar cerca de 65.000 profissionais de saúde.
Dirigindo-se ao Presidente moçambicano, Daniel Chapo, a associação queixou-se do "vergonhoso colapso geral" do SNS, alegando que, na maioria das unidades sanitárias do país, incluindo grandes hospitais, os pacientes são obrigados a suportar custos básicos que deveriam ser assegurados pelo Estado, desde medicamentos e material médico-cirúrgico até combustível para ambulâncias, alimentação, lençóis e cobertores.
"Os profissionais de saúde usam o mísero salário para comprar material de proteção e de higiene para ajudar a população", lamentou o presidente da APSUSM.
A associação denunciou ainda o agravamento das dificuldades no atendimento hospitalar, alegando que em alguns grandes hospitais consultas consideradas urgentes e exames complementares chegam a ser marcados com vários meses de antecedência, comprometendo o tratamento dos doentes.
Sustentou igualmente que a escassez de recursos é generalizada, apontando a falta de receituários, o que obriga os profissionais a encaminhar pacientes para a aquisição de medicamentos no setor privado, muitas vezes indisponíveis nas próprias províncias onde residem.
Também denunciou alegado abandono da classe, com longos turnos sem pagamento, falta de progressões de carreira, além da falta de alimentação e de dívidas salariais e retroativos aos profissionais de saúde.
Entre as exigências apresentadas ao Governo, a APSUSM defende a adoção de um plano para garantir o abastecimento de medicamentos, material médico-cirúrgico, combustível e alimentação nas unidades sanitárias, bem como a criação de um plano estrutural para responder às recorrentes ruturas de stock no setor.
A associação exige ainda o pagamento de horas extras, retroativos e outras dívidas aos profissionais de saúde, a aceleração dos processos de progressão nas carreiras e a distribuição urgente de medicamentos em todo o país.
A organização reivindica igualmente alimentação obrigatória para os profissionais de saúde em turnos de 24 horas e maior transparência na gestão das carreiras no setor.
Muchave avisou que, caso o Governo não apresente o plano emergencial para o setor durante o período de prorrogação da greve, será convocada uma manifestação nacional envolvendo profissionais de saúde e a população.