O preparador físico português Nuno Pina, 35 anos, regressou este mês à equipa do campeão olímpico e recordista mundial Pan Zhanle, consolidando a presença de uma nova geração de especialistas nacionais no desporto de alto rendimento chinês.
O português regressou à China, após ter sido novamente convidado pela Federação Chinesa de Natação para assumir a preparação física de Pan Zhanle até aos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 2028.
Pina integrou a equipa multidisciplinar da federação chinesa entre março de 2023 e os Jogos Olímpicos de Paris, em 2024, onde Pan conquistou a medalha de ouro nos 100 metros livres e bateu o recorde mundial da distância, com apenas 19 anos.
Após o fim desse vínculo, regressou a Portugal, onde fundou o Lumina Pilates Studio, na zona da Quinta do Lambert, em Lisboa, juntando-o à clínica ForPhysio, que havia criado cerca de uma década antes, logo após concluir a licenciatura.
"O principal objetivo do meu trabalho é reduzir ao máximo o risco de lesão. Só dessa forma é possível garantir que o Pan passa o maior número de horas possível a realizar o treino mais importante para um nadador, que é o treino dentro de água", disse o português, em entrevista à Agência Lusa, em Pequim.
Segundo o preparador físico, o trabalho fora da piscina passa por identificar as necessidades individuais do atleta, integrando mobilidade, controlo motor, força máxima, potência e exercícios específicos para transferir a força para o meio aquático.
"A natação é uma modalidade extremamente exigente do ponto de vista biomecânico. O ser humano está adaptado ao meio terrestre, e o desempenho de um nadador acontece no meio aquático, o que obriga a que a preparação física fora de água tenha características muito próprias", afirmou.
Pina acredita que Portugal tem formado profissionais "com enorme capacidade e motivação" e que a falta de recursos, quando comparada com grandes potências desportivas, obriga os especialistas nacionais a serem "muito criativos, multidisciplinares e orientados para resolver problemas".
"Aquilo que os portugueses acrescentam na China passa pela capacidade de integrar na prática diferentes áreas do conhecimento: biomecânica, fisioterapia, treino de força, controlo da carga, recuperação e análise do movimento", afirmou.
"Não olhamos apenas para o músculo ou para o exercício; olhamos para o atleta como um todo", acrescentou.
Na sua opinião, essa abordagem complementa a "enorme capacidade de trabalho, organização e disciplina" que já existe no sistema desportivo chinês.
O português considerou que a evolução da natação chinesa nos últimos anos resulta de "vários anos de investimento muito consistente", com aproximação entre ciência e treino diário, reforço das equipas multidisciplinares, investimento em tecnologia, abertura à colaboração internacional e preparação mais individualizada.
"Hoje existe uma integração muito maior entre treinadores, preparadores físicos, fisioterapeutas, médicos, analistas de dados e restantes especialistas. Todos trabalham para o mesmo objetivo e tomam decisões baseadas em evidência científica", observou.
Sobre Pan Zhanle, Nuno Pina afirmou que o campeão olímpico reúne características raras, juntando talento, disciplina, competitividade e tranquilidade nos momentos de maior pressão.
"Tem um talento extraordinário, mas aquilo que mais impressiona é a sua capacidade de trabalhar diariamente com enorme consistência. É extremamente competitivo, muito disciplinado e consegue manter uma tranquilidade notável nos momentos de maior pressão", descreveu.
"Nos atletas de topo, a diferença raramente está numa grande mudança; está na capacidade de melhorar 0,1% todos os dias. É essa mentalidade que ajuda a explicar porque conseguiu atingir um nível tão elevado", afirmou.
Ao recordar os Jogos Olímpicos de Paris, que viveu por dentro da equipa chinesa, o preparador físico português descreveu a experiência como "um dos momentos mais marcantes" da carreira.
"Os Jogos Olímpicos têm uma atmosfera muito difícil de descrever. Existe uma intensidade emocional enorme, uma exigência permanente e uma responsabilidade muito grande, porque sabemos que anos de trabalho podem ser decididos em poucos centésimos de segundo", afirmou.
A experiência reforçou a convicção de que "a excelência nunca é obra do acaso" e "é sempre o resultado da soma de centenas de pequenas decisões bem tomadas ao longo do tempo", realçou.