Um centro de tratamento de Ébola em Ituri, no leste da República Democrática do Congo (RDCongo), foi hoje incendiado por residentes revoltados após terem sido impedidos de recuperar um corpo para realizarem o seu funeral.
O fogo posto ao centro de tratamento em Rwampara, na província de Ituri, no leste da RDCongo - nação vizinha de Angola - é encarado como prova de como medidas sanitárias rigorosas, cruciais para travar a atual epidemia de Ébola, chocam frequentemente com costumes locais profundamente enraizados, em particular os rituais tradicionais fúnebres, notou o jornal britânico Independent.
As autoridades procuram gerir os funerais dos suspeitos de infeção de Ébola, uma vez que os corpos permanecem altamente contagiosos, uma forma de prevenir novas transmissões, que ocorrem frequentemente quando as comunidades preparam os corpos para o enterro e se reúnem para as cerimónias fúnebres.
O centro de Rwampara terá sido incendiado por jovens locais, enfurecidos após terem sido impedidos de recuperar o corpo de um amigo que se acreditava ter morrido de Ébola, de acordo com uma testemunha ocular que falou à Associated Press (AP).
"A polícia interveio para tentar acalmar a situação, mas infelizmente não teve sucesso", disse Alexis Burata, um estudante local que afirmou estar na zona.
"Os jovens acabaram por pegar fogo ao centro. É essa a situação", acrescentou.
Um jornalista da AP viu pessoas a invadir o centro e a incendiar objetos no seu interior, bem como o que parecia ser o corpo de pelo menos uma vítima suspeita de Ébola que ali estava guardado.
Os trabalhadores humanitários fugiram do centro de tratamento em veículos, acrescentou.
O comissário sénior adjunto Jean Claude Mukendi, chefe do departamento de segurança pública da província de Ituri, explicou à AP que o incidente se deveu a jovens que não compreenderam os protocolos exigidos para o enterro de vítimas suspeitas de Ébola.
"Todos os corpos devem ser enterrados de acordo com os regulamentos", acrescentou.
O Ébola tem vindo a espalhar-se há semanas por uma região que já lida com instalações de saúde inadequadas e com a deslocação generalizada de populações devido ao conflito armado.
O Uganda, o Sudão do Sul e a RDCongo, países afetados pela epidemia de Ébola, que regista mais de 130 mortos, vão reunir-se sexta-feira e sábado, anunciou hoje a agência de saúde africana.
Na sequência de um pedido das autoridades ugandesas, o Centro Africano de Controlo e Prevenção de Doenças (Africa CDC) da União Africana (UA) afirmou, num comunicado, que está a organizar uma reunião para fortalecer "a preparação regional, a coordenação da resposta e o alinhamento de políticas" para lidar com a epidemia.
O encontro na capital ugandesa, Kampala, vai reunir ministros da Saúde, altos funcionários do Governo, institutos nacionais de saúde pública, especialistas técnicos e parceiros regionais e internacionais, incluindo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
As estratégias de preparação e resposta serão harmonizadas além-fronteiras e entre os países afetados e em risco, as lacunas operacionais serão identificadas e a colaboração entre as autoridades será reforçada para evitar a propagação e proteger a população, afirmou.
A epidemia, declarada na sexta-feira e que já causou 139 mortes e 600 casos suspeitos na RDCongo e no Uganda, corresponde a uma nova estirpe do Ébola, para a qual não existe vacina e a taxa de mortalidade varia entre 30% e 50%, segundo a OMS.
A RDCongo é regularmente afetada por epidemias do vírus Ébola, que se transmite através do contacto direto com sangue ou outros fluidos corporais de pessoas infetadas ou animais infetados e provoca febre hemorrágica grave, dores musculares, fraqueza, dores de cabeça, irritação da garganta, febre, vómitos, diarreia e hemorragias internas.