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EUA levantam suspensão de candidaturas de imigração para médicos e outros ficam à espera

LUSA
09-05-2026 00:25h

A administração dos EUA fez, silenciosamente, uma exceção para médicos com pedidos de visto ou cartão verde pendentes, medida que organizações médicas e advogados de imigração vinham a solicitar há meses, mas não se sabe como vai funcionar.

Estas organizações defendiam esta medida com base no argumento da escassez generalizada e a elevada proporção de médicos formados no estrangeiro, que trabalham desproporcionalmente em áreas carenciadas, de acordo com a Biblioteca Nacional de Medicina.

O médico líbio Faysal Alghoula deveria renovar o seu cartão verde para continuar a cuidar de aproximadamente 1.000 pacientes no sudoeste do estado norte-americano do Indiana, mas não tem conseguido fazê-lo desde que a administração Trump deixou de rever pedidos de pessoas de várias dezenas de países considerados de alto risco.

O visto de Alghoula vai expirar em setembro se o seu pedido for negado.

Mas, poderá ser um dos contemplados pela exceção criada pela administração do Presidente Donald Trump para aqueles profissionais de saúde.

A falta de médicos é uma preocupação central para Alghoula, um pneumologista e médico de Unidade de Cuidados Intensivos que atende uma população principalmente rural que se estende por partes do Indiana, Illinois e Kentucky.

“São cerca de quatro a cinco meses à espera de trazer o pneumologista aqui,” disse em declarações à agência de notícias Associated Press (AP).

Ainda assim, candidatos e advogados de imigração dizem que não está claro quanta diferença a exceção fará.

Trata-se de uma mudança significativa, os médicos poderem ter os seus casos revistos, mas não garante que os seu cartões verdes ou vistos sejam renovados.

Também não está claro se os Serviços de Cidadania e Imigração dos EUA serão capazes de processar essas aplicações a tempo de cumprir os prazos de imigração como o de Alghoula.

Entretanto, a pausa nas candidaturas permanece em vigor para milhares de outros cidadãos, incluindo investigadores e empreendedores de 39 países, entre os quais os do Irão, Afeganistão e Venezuela.

Enquanto estão em espera, muitos não podem trabalhar legalmente, obter seguro de saúde ou uma carta de condução.

Se saírem dos EUA, não serão autorizados a voltar.

A administração Trump decidiu no ano passado parar de analisar pedidos de cartão verde e de vistos para pessoas de uma lista de países considerados de alto risco e, este ano, deixou de analisar pedidos de visto para cidadãos de mais de 75 países por preocupações de que procurassem assistência pública.

As medidas surgiram no contexto de uma repressão mais ampla do governo dos EUA contra imigrantes.

O Departamento de Segurança Interna, que supervisiona os funcionários de imigração, não respondeu a perguntas da AP sobre esta pausa ou às mudanças recentes que isentam médicos, mas disse num e-mail que deseja garantir que os candidatos sejam devidamente avaliados, após ter referido que a administração anterior não o fez.

“Existem muitas proibições e “muitas pausas que estão a acontecer neste momento”, disse Greg Siskind, um advogado de imigração baseado em Memphis, Tennessee.

“Trata-se de tornar a vida miserável para as pessoas que estão aqui legalmente para que escolham outros países”, acrescentou.

Não está claro quantos médicos foram afetados pela pausa, de acordo com um porta-voz da American Academy of Family Physicians, que disse que vários médicos contactaram a organização a pedir ajuda. Alguns médicos já foram recusados.

Antes da isenção, muitos imigrantes apresentaram processos federais exigindo que o governo emitisse decisões sobre os seus casos.

Um destes foi o da iraniana Zahra Shokri Varniab, que veio para os Estados Unidos há três anos para realizar investigação em radiologia. Esta cidadã estava à espera de um cartão verde, mas a sua candidatura ficou retida durante o período de pausa para candidaturas.

Por isso, Shokri Varniab entrou com um processo na justiça exigindo uma resposta à sua candidatura e um juiz federal ordenou que os oficiais de imigração revissem o seu caso. Eles fizeram-no e negaram-lhe.

Com 33 anos, a médica disse que acredita que foi por retaliação pelo seu processo.

Em documentos judiciais, advogados do governo dos EUA escreveram que a candidatura de Shokri Varniab continha inconsistências sobre se aquela mulher planeia tornar-se médica na prática ou investigadora.

A médica diz que planeia exercer as duas atividades e acrescentou que a exceção não parece aplicar-se a ela, uma vez que o seu caso já foi decidido, mas está a procurar um alívio judicial.

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