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Supremo Tribunal da Índia ouve vítimas para decidir se proíbe mutilação genital feminina

Lusa
08-05-2026 13:08h

O Supremo Tribunal da Índia ouviu hoje várias vítimas de mutilação genital feminina no âmbito de um megaprocesso para definir os limites constitucionais da liberdade religiosa em relação aos direitos das mulheres.

Um painel especial de nove juízes, presidido por Surya Kant, examinou a legalidade do ritual praticado na Índia pela minoria xiita, os Dawoodi Bohra.

“O que estabelecermos servirá para toda uma civilização, e essa civilização é a Índia. A Índia deve progredir, mas há um costume entre nós que não podemos ignorar, e é isso que nos preocupa”, afirmou uma das juízas.

A origem deste megaprocesso, que teve início formal na quinta-feira, remonta a uma decisão polémica de 2018 sobre o templo de Sabarimala, em Kerala, quando o Supremo Tribunal ordenou o fim da proibição da entrada de mulheres “em idade menstrual”, consideradas impuras pelos setores mais tradicionais do hinduísmo.

Esta decisão contra uma tradição sagrada hindu desencadeou uma crise social e obrigou o tribunal a avaliar casos tão diversos como o acesso a mesquitas, templos parsis e a própria mutilação genital feminina para decidir se a “moralidade constitucional” está acima dos costumes religiosos.

O processo aborda também o impacto da excomunhão, uma prática que o advogado que representa as vítimas descreveu como “morte civil”, uma vez que priva as pessoas do direito de rezar nas suas mesquitas ou de serem enterradas nos cemitérios.

Atualmente, a Índia não possui uma lei que proíba a mutilação genital feminina, pelo que o Estado utiliza a “falta de dados oficiais” como desculpa para evitar documentar a prática.

Com este megaprocesso, o tribunal quer determinar se uma prática considerada “essencial” por uma religião pode ser invalidada por violar o direito à saúde e à dignidade (artigos 25.º e 26.º da Constituição indiana).

A sessão de hoje contou com um momento de tensão, quando o advogado que representa a comunidade xiita defensora da prática, Nizam Pasha, tentou justificar a ‘khatna’ (mutilação genital feminina) alegando tratar-se de uma “circuncisão simbólica” destinada a aumentar o prazer sexual das mulheres.

“Do que é que está a falar?! Informe-se melhor. É exatamente o contrário”, afirmou de imediato um dos juízes, enquanto outro realçava que o verdadeiro objetivo do ritual é o “controlo da autonomia sexual das mulheres” e que a Constituição permite censurar costumes quando estão em causa razões de saúde pública.

A reação dos juízes foi lida como uma demonstração de que os argumentos do advogado das vítimas foram bem recebidos, disse uma das sobreviventes, Massoma Ranalvi, em declarações à agência de notícias espanhola Efe.

O advogado denunciou perante o tribunal que a prática é realizada em meninas de apenas sete anos de idade e provoca uma “alteração irreversível no seu corpo que afetará a sua saúde sexual e reprodutiva”.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a mutilação genital feminina como todos os procedimentos que envolvam a remoção parcial ou total dos órgãos genitais externos por motivos não médicos e, tal como outras agências das Nações Unidas, considera a prática como uma violação dos direitos humanos, uma forma extrema de discriminação de género e uma violência contra as crianças, já que a maioria das vítimas tem entre menos de 15 anos.

Segundo os dados mais recentes da organização, publicados em 2025, mais de 230 milhões de raparigas e mulheres vivas foram submetidas a esta prática em 30 países da África, Médio Oriente e Ásia.

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