O navio cruzeiro onde foi detetado o hantavírus ficará ao largo das Canárias, sem atracar num cais, e os ocupantes só serão retirados quando já estiveram no aeroporto os aviões em que serão repatriados, disseram hoje as autoridades locais.
O navio “MV Hondius” “não atracará, ficará fundeado” em frente do porto industrial de Granadilla, na ilha de Tenerife, explicou o presidente do governo regional das Canárias, Fernando Clavijo, em declarações aos jornalistas em Madrid, após uma reunião com a ministra da Saúde de Espanha, Mónica García.
Os ocupantes do navio, que esteve de quarentena em Cabo Verde e viaja agora rumo às Canárias, serão depois levados para “zona específica e reservada” do aeroporto Tenerife Sul, a pouco mais de 10 quilómetros, para serem repatriados e, no caso dos 14 espanhóis a bordo, para serem transportados a um hospital militar de Madrid.
Segundo Fernando Clavijo, as 144 pessoas que estão no cruzeiro só serão levadas para o aeroporto depois de já estarem em terra os aviões em que serão transportadas.
O transporte até ao aeroporto será feito por um percurso com uma “barreira de segurança” e com “todas as garantias” de segurança e proteção das pessoas envolvidas, acrescentou o representante local.
O barco deverá chegar a Tenerife na noite de sábado para domingo, com o Ministério da Administração Interna (MAI) espanhol a prever o início da retirada dos ocupantes na segunda-feira.
No caso de cidadãos da União Europeia (UE), o Governo espanhol, que ativou o mecanismo europeu de proteção civil para esta operação, disse que “vai propor-se a cada Estado-membro que faça a repatriação dos seus nacionais”.
“Se for preciso, por impossibilidade de algum Estado, a Comissão Europeia assumirá a transferência” dessas pessoas, disse o MAI.
Quanto às pessoas de países fora da UE, estão ainda a decorrer contactos e reuniões através do Ministério dos Negócios Estrangeiros “para coordenar” os repatriamentos, disse o MAI, numa informação enviada aos jornalistas.
Só ficarão em Tenerife passageiros ou tripulantes que, à chegada, precisem de cuidados médicos, sendo que neste momento ninguém a bordo do barco tem sintomas de doença, segundo o Governo de Espanha e a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Estão a bordo médicos da OMS que continuam a vigiar e a examinar os ocupantes, disse ainda Fernando Clavijo, citando informações transmitidas pelo Governo espanhol.
O que continua por esclarecer é se o navio será desinfetado nas Canárias ou será levado para outro destino para inspeção e desinfeção.
O presidente do governo regional das Canárias afirmou que pediu para o navio, que tem pavilhão dos Países Baixos, seguir de imediato para este país após a retirada dos passageiros, caso a tripulação esteja sem sintomas de doença.
O Governo de Espanha vai transmitir este pedido, mas não garantiu que seja atendido, referiu Fernando Clavijo.
O presidente do executivo regional reiterou estar em desacordo com a realização desta operação nas Canárias, mas disse que é “uma competência” do Governo nacional que as autoridades autonómicas têm de acatar, ressalvando ter ficado mais tranquilo com as “garantias de segurança” que ouviu hoje por parte do Ministério da Saúde.
Clavijo defendeu que Espanha não tinha “obrigação legal” de acolher o barco e que para os próprios passageiros, todos neste momento sem sintomas, seria melhor um repatriamento a partir dos aeroportos internacionais de Cabo Verde do que serem sujeitos a mais três ou quatro dias de viagem pelo mar, até às Canárias.
O “MV Hondius” esteve de quarentena em águas de Cabo Verde desde domingo.
Na quarta-feira, foram retirados do navio cruzeiro dois membros da tripulação com sintomas de infeção e um passageiro assintomático, mas que partilhou cabine com uma das vítimas mortais por síndrome respiratória aguda - doença que se suspeita estar relacionada com dois casos de hantavírus a bordo, confirmados em laboratório.
As três pessoas foram retiradas para aviões ambulância no aeroporto internacional Nelson Mandela, Praia (Cabo Verde), e estão já nos Países Baixos.
Segundo a OMS, as Canárias são o porto mais próximo com todas as capacidades técnicas e de segurança de saúde pública necessárias para a operação planeada.
Por outro lado, as ilhas espanholas são território da UE e contam, por isso, com o quadro legal europeu e o mecanismo que garante o repatriamento "com condições de maior segurança", disse Fernando Grande-Marlaska, ministro com a pasta da Administração Interna no executivo espanhol.
O ministro sublinhou que Espanha vai assegurar esta operação por razões "humanitárias, éticas e morais", face a "uma situação sanitária grave" com pessoas que precisam de ajuda, mas também por "obrigações jurídicas internacionais", atendendo a convénios e tratados assinados pelo país e ao facto de estarem 14 espanhóis a bordo do navio.
O navio, com pessoas de 23 nacionalidades, fazia a rota entre Ushuaia, na Argentina, e as Canárias, quando surgiram relatos de doença a bordo.
Até agora, foram identificados seis casos suspeitos e dois confirmados de infeção com hantavírus entre ocupantes do navio. Três pessoas morreram.
Os hantavírus são vírus que podem ser transmitidos entre animais e humanos, estando associados a roedores.