Portugal vai avançar, a partir de 2027, com um estudo-piloto de rastreio do cancro da próstata, envolvendo cerca de 20.000 homens em três regiões do país, com enfoque em populações mais afastadas dos cuidados de saúde, foi hoje anunciado.
O projeto será desenvolvido pela Unidade Local de Saúde (ULS) São José, em Lisboa, pela ULS Litoral Alentejano e pelo 2CA-Braga – Centro Clínico Académico, no âmbito do PRAISE-U PLUS, um projeto europeu financiado pelo programa EU4Health.
“Trata-se de um projeto europeu elaborado para a Associação Europeia de Urologia, com financiamento da União Europeia, que pretende oferecer aos homens com mais de 55 anos a oportunidade de entrarem num rastreio do cancro da próstata”, disse à agência Lusa o diretor clínico para os cuidados hospitalares da ULS São José.
Luís Campos Pinheiro sublinhou que “o objetivo é diagnosticar a doença mais precocemente, permitir tratamentos curativos e diminuir a mortalidade”.
Além da vertente clínica, o projeto tem também objetivos científicos, procurando compreender o comportamento das populações com menor acesso aos cuidados de saúde, designadamente pessoas com menor literacia em saúde, com baixo nível socioeconómico, migrantes e residentes em zonas rurais.
“Queremos melhorar o conhecimento sobre a prevalência do cancro nestas populações e também o que fazer para que os programas de rastreio nestas populações funcionem como funcionam nas classes que estão mais perto dos serviços de saúde”, explicou.
O estudo-piloto prevê abranger 20 mil homens assintomáticos, entre os 55 e os 70 anos, distribuídos por quatro populações.
A ULS São José ficará responsável pelo recrutamento de duas populações em Lisboa, migrantes e pessoas com baixos níveis socioeconómicos, com cerca de 5.000 participantes cada.
Já a ULS do litoral Alentejano irá recrutar cerca de 5.000 homens em contexto rural e o Centro Clínico Académico de Braga irá recrutar outros 5.000 nos centros de saúde da região.
O estudo prevê um percurso de rastreio faseado, iniciando-se com a convocatória para a realização do teste sanguíneo de doseamento do PSA, recorrendo a diferentes meios de contacto, incluindo SMS, à semelhança do que foi utilizado durante a pandemia.
Nos casos com valores elevados, está prevista a realização de exames complementares, como ecografia prostática e ressonância magnética multiparamétrica, e quando indicado, será realizada uma biópsia prostática
As instituições envolvidas ficarão responsáveis por tratar os doentes que conseguirem diagnosticar, com “uma entreajuda grande” caso seja necessário, explicou.
Para Luís Campos Pinheiro, o projeto representa não só um avanço clínico, mas também científico e organizacional, permitindo avaliar como os sistemas de saúde conseguem chegar de forma mais eficaz a populações mais afastadas e com maior dificuldade de acesso.
“Estamos a falar de um grupo significativo da população que, por razões sociais e geográficas, está mais distante dos serviços de saúde. É sobre esse grupo que queremos atuar”, referiu
Além disso, o facto de ser um consórcio internacional permite reforçar a dimensão da chamada “medicina internacional”, promovendo a partilha de experiência científica entre os profissionais envolvidos.
“Todo este envolvimento num estudo desta dimensão vai ser muito útil para o estudo destas pessoas e para um resultado final no tratamento dos nossos doentes”, vincou.
A criação do consórcio nacional resultou da convergência de candidaturas inicialmente separadas.
A ULS São José e o 2CA-Braga estavam a preparar projetos muito robustos e decidiu-se unir esforços, explicou.
A integração da ULS Litoral Alentejano surgiu posteriormente, com o objetivo de garantir a inclusão de uma população rural no estudo.
Segundo a ULS São José, o estudo-piloto permitirá recolher informação relevante para a avaliação da exequibilidade, impacto e custo-efetividade de um modelo estruturado de deteção precoce em Portugal, onde ainda não existe um programa de rastreio para esta patologia.
A implementação do projeto implica uma estratégia de integração de cuidados, que envolve os cuidados de saúde primários, a saúde pública e os cuidados hospitalares.
Associa-se a este projeto a Faculdade de Ciências Médicas|Nova Medical School, que permitirá o armazenamento de amostras e dados no seu BioBanco, o que representa uma estratégia inovadora para promoção de projetos de investigação subsequentes.