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Profissionais de saúde moçambicanos em greve acusam Governo de incumprimento de acordos

Lusa
30-03-2026 11:00h

Os profissionais de saúde moçambicanos, em greve desde janeiro, acusaram hoje o Governo de não cumprir as recomendações acordadas nas negociações e ameaçaram paralisar totalmente as atividades numa nova fase da greve, que já fez 1.872 mortes.

"A greve continua e o diálogo nada está a trazer de avanços. As recomendações acordadas com o Governo não foram cumpridas e a situação nacional do Sistema Nacional de Saúde está catastrófica", disse hoje em conferência de imprensa o presidente da Associação dos Profissionais de Saúde Unidos e Solidários de Moçambique (APSUSM), em Maputo. 

Segundo Anselmo Muchave, atualmente, pacientes estão a morrer nas unidades de saúde nacionais por falta de oxigénio, medicamentos e equipamentos básicos, e outros perdem membros por infeções causadas por falta de material médico esterilizado.

"As consultas de uma simples doença é marcada para nove meses e quando o Governo decide mandar cobrar, cobra os pacientes que praticamente têm doenças do foro cirúrgico nos hospitais centrais. Isto é um genocídio silencioso", avançou o representante, acrescentando que os profissionais de saúde trabalham em condições desumanas, sem recursos e sem apoio.

Quando passam quase três meses desde o início da greve da classe, iniciada em 16 de janeiro, em reivindicação do pagamento completo do 13.º salário de 2025 - contra os 40% aprovados pelo Governo a pagar até fevereiro - e melhores condições de trabalho no setor, Muchave aponta para milhares de mortes causadas pela escassez de materiais médicos, associados a falta de atendimento nas unidades sanitárias moçambicanas.

"Há mais de 1.872 mortes por três meses por falta de medicamentos, material médico-cirúrgico e de atendimento nas unidades sanitárias", referiu o responsável.

A APSUSM exigiu do Governo "ação imediata" para resolver a crise na saúde, garantindo o fornecimento de medicamentos e material médico cirúrgico, melhoria das condições de trabalho dos profissionais de saúde e justiça para as vítimas das pessoas que estão a morrer nos hospitais, por falta de medicamentos. 

"A APSUSM não vai recuar. A luta é pela vida, pela dignidade e pelos direitos na saúde, não vamos permitir que o Governo negligencie o Sistema Nacional de Saúde e coloque em risco a vida dos profissionais de saúde e dos moçambicanos", reiterou Anselmo Muchave.

O presidente daquela associação, que abrange cerca de 65.000 profissionais de saúde de diferentes departamentos, garantiu que a classe continuará a lutar "até que a justiça seja feita", assinalando também que a próxima etapa da greve, que será lançada em alguns dias, caso não se chegue a um consenso com o Governo, vai paralisar na totalidade as atividades nas unidades hospitalares nacionais.

"Não paralisamos as atividades na totalidade no início para ver se esse novo Governo pelo menos possa ter sensibilidade, mas estamos a ver que esse Governo é pior que o Governo passado porque o passado tinha acessibilidade", concluiu a fonte.

Em 16 de março, os profissionais de saúde moçambicanos prolongaram por mais 30 dias a greve, alegando falta de responsabilidade do Governo nos compromissos assumidos.

"Esta decisão não foi tomada de forma leviana. Trata-se de uma decisão ponderada, baseada na responsabilidade que temos para com os profissionais da saúde e para com o povo moçambicano. A greve continua a ser um instrumento legítimo de reivindicação perante a falta de soluções estruturais para os problemas que afetam o setor nacional de saúde", disse na altura Anselmo Muchave. 

O setor da saúde enfrenta, há quatro anos, greves e paralisações convocadas pela APSUM e o Sistema Nacional de Saúde moçambicano enfrentou também, nos últimos três anos, diversos momentos de pressão, provocados por greves de funcionários, convocadas pela Associação Médica de Moçambique (AMM) e exigindo melhorias das condições de trabalho.

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