A diretora do Serviço de Nefrologia da Unidade Local de Saúde (ULS) de Coimbra alertou hoje para os impactos da doença renal crónica, cujas previsões apontam para que, em 2050, possa constituir a quinta causa de morte.
A dois dias de se assinalar o Dia Mundial do Rim e os 50 anos daquele serviço, a professora Helena Sá lembrou que a doença renal emite poucos alertas e sintomas, pelo que é necessário acompanhamento médico regular, com análises ao sangue e à urina.
"Não devemos avaliar só o colesterol e a glicémia, mas também preocupar-nos em avaliar e perguntar como está a creatinina, que é um aspeto importante para avaliar o grau de função renal", sublinhou.
Segundo a especialista, o estilo de vida da população, com o aumento da diabetes e da obesidade, associado à hipertensão e doenças cardíacas, contribui para o aumento da doença renal crónica, tal como as alterações climáticas, sobretudo nos períodos de muito calor, em que existe desidratação do corpo.
Apesar das perspetivas de agravamento da doença nas próximas décadas, a diretora do Serviço de Nefrologia da ULS de Coimbra considerou que a unidade está a "fazer alguma coisa de bom relativamente à prevenção nestes últimos anos", de acordo com dados preliminares que serão revelados na quinta-feira.
De acordo com os dados de 2025, o Serviço de Nefrologia é responsável pela assistência de 850 doentes saídos de internamento, pela realização de 27.600 consultas médicas e 3.400 consultas enfermagem, além de 6.900 sessões de hemodiálise a doentes crónicos e 7.200 a doentes internados e agudos, e a realização de 728 sessões de hemodiafiltração venovenosas contínuas.
O anterior diretor, Rui Alves, já aposentado, frisou que o início da terapêutica dialítica (diálise) em Coimbra, na década de 70 do século passado, permitiu "salvar muita gente, que, teria de ir, literalmente, para Espanha" fazer tratamentos.
"No espaço de poucos anos, conseguimos através do Serviço Nacional de Saúde [SNS] dar resposta em termos de diálise àqueles doentes insuficientes renais crónicos, que foi de longe, penso eu, das mais importantes e impactantes, comparada ao que de melhor se fazia no mundo", frisou.
José Manuel Natário, de 61 anos, residente em Coimbra, é um dos doentes transplantados há 35 anos que é acompanhado regulamente no Serviço de Nefrologia.
"Aos 24 anos comecei a fazer hemodiálise e aos 26 fiz o transplante e renasci para a vida. Depois conclui o curso de engenharia civil e fiz uma vida perfeitamente normal - casei e tive dois filhos", disse.
"A vida para mim, graças ao transplante, correu como uma vida nova. Tenho uma atividade muito intensa e creio que, até na minha vida profissional, o facto de ter sido transplantado permitiu-me ter uma atitude perante a vida diferente do que se não o tivesse feito", acrescentou.
Ainda no âmbito assistencial, a diretora do Serviço de Nefrologia da ULS de Coimbra gostaria de desenvolver a hemodiálise domiciliária por ser "uma mais-valia para o doente, pelo que, no âmbito de projetos que possam existir de suporte, queríamos introduzir esse tratamento no nosso hospital".
O serviço pretende também, segundo Helena Sá, reforçar o apoio psicológico e nutricional aos doentes, na sequência de alertas das associações de doentes.
O Serviço de Nefrologia da ULS de Coimbra completou 50 anos em fevereiro, mas as comemorações decorrem na quinta-feira, Dia Mundial do Rim, com um vasto programa nos Hospitais da Universidade de Coimbra, em que se destacam uma exposição e palestras da coordenadora de hemodiálise, Ana Galvão, e do antigo diretor de serviço Rui Alves.
Tem todas as valências nefrológicas e protocolo com 15 unidades periféricas de hemodiálise da zona Centro, dando apoio a cerca de 1.700 doentes hemodialisados, e atua em articulação com o Serviço de Cirurgia Vascular e Transplantação Renal e o Serviço de Urologia e Transplantação Renal da ULS de Coimbra (Centro de Referência Nacional para Transplantação Renal do adulto).