As autoridades sanitárias de Nampula, epicentro da epidemia de cólera em Moçambique, pretendem vacinar contra a doença 845 mil pessoas em dois distritos daquela província, com proteção das Forças Armadas face à desinformação local, foi hoje anunciado.
De acordo com o responsável pelo departamento de Saúde Pública na Direção Provincial de Saúde, Jaime Miguel, a campanha de vacinação vai decorrer de 02 a 06 de março nos distritos de Nacala-Porto e Eráti, que têm registado um grande número de casos de cólera recentemente.
“Surge como reforço às medidas de prevenção já em curso”, afirmou hoje à Lusa Jaime Miguel, explicando que o objetivo é vacinar todos os residentes com idade igual ou superior a um ano.
Um dos principais desafios identificados é o histórico de desinformação envolvendo a cólera em Nacala-Porto, com episódios anteriores de hostilidade contra profissionais de saúde. Para contrariar rumores, as autoridades têm intensificado o diálogo com líderes locais.
“Estamos a envolver líderes de alto impacto e a trabalhar desde já com líderes comunitários e religiosos para fazer entender que é uma vacina oral, segura e que não dói”, sublinhou o responsável.
Jaime Miguel acrescentou que a segurança das equipas de saúde está garantida, com apoio em caso de necessidade: “As Forças Armadas já estão informadas e, em situações de instabilidade, poderão apoiar na sensibilização e proteção dos técnicos”.
A campanha vai ainda decorrer num período sensível, marcado pelo Ramadão, para os muçulmanos, e pela Quaresma, para os cristãos, religiões que dominam a província de Nampula: “Sabemos que é um período de jejum para muitos cidadãos. Esta vacina é administrada por via oral, em gotas, e por isso conversámos com as comunidades islâmica e cristã para difundir a informação nos cultos e nas mesquitas”.
Entre as estratégias definidas está a vacinação em horários ajustados ao período de jejum.
“Uma das grandes estratégias é vacinar após as 17:00, que é o período de quebra do jejum, visto que a vacina será administrada oralmente. Teremos equipas nas comunidades e nas mesquitas para oferecer a vacina às pessoas que acabaram de quebrar o jejum”, explicou.
De acordo com o último boletim disponível da Direção Nacional de Saúde Pública (DNSP), com dados de 03 de setembro a 18 de fevereiro, do total de 5.764 casos de cólera contabilizados, 2.500 foram na província de Nampula, com um acumulado de 32 mortos, e 2.180 em Tete, com 28 óbitos, além de 909 em Cabo Delgado, com oito mortos.
Em menor dimensão, o acumulado aponta para 95 casos de cólera, e um morto, na província da Zambézia, e 78 casos e dois mortos na província de Manica. Surgiram agora casos na cidade de Maputo e na província de Gaza (um em cada).
Só nas 24 horas anteriores ao fecho deste boletim (18 de fevereiro), foram confirmados mais 103 casos, com a taxa de letalidade geral nacional a baixar para 1,2%. Em três dias, o número de novos doentes ascendeu a 313 e um morto.
No surto de cólera anterior, segundo dados da DNSP, de 17 de outubro de 2024 a 20 de julho de 2025, registaram-se 4.420 infetados, dos quais 3.590 na província de Nampula, e 64 mortos, pelo que o atual já ultrapassa o número de doentes e mortos em cerca de metade do tempo do anterior.
As autoridades sanitárias moçambicanas assumiram há dias que o país enfrenta uma epidemia de cólera, com a doença presente em 22 distritos.