A ex-ministra da Saúde, Ana Jorge, considera que a resposta prevista no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) para a área dos cuidados continuados está longe de corresponder às necessidades do país. A antiga ministra, esteve no programa "Efeito Placebo" do Canal S+ e lembra que foram anunciadas cerca de cinco mil camas nesta área, mas sublinha que a concretização ficou muito aquém do esperado.
Para Ana Jorge, a escassez de camas de cuidados continuados tem impacto direto no funcionamento dos hospitais, nomeadamente ao nível dos internamentos prolongados e da pressão sentida nas urgências. Muitos doentes, explica, permanecem em contexto hospitalar por falta de alternativas adequadas na rede de cuidados continuados integrados, mesmo quando já não necessitam de cuidados diferenciados hospitalares.
A antiga ministra recorda que estas respostas são fundamentais para doentes que ainda beneficiam de reabilitação e acompanhamento clínico global, defendendo que o investimento nesta área é determinante para libertar camas hospitalares e melhorar a eficiência do sistema. Ana Jorge aponta ainda para outro problema estrutural: a sobrelotação das urgências. Na sua perspetiva, a solução não passa apenas por reorganizar os hospitais, mas por reforçar a resposta ao nível dos cuidados de saúde primários e da comunidade.
A ex-ministra defende que o acesso atempado ao médico de família, quer na vigilância da doença crónica, quer em situações agudas ou súbitas, pode evitar muitas deslocações desnecessárias às urgências hospitalares. No entanto, reconhece que a falta de médicos de família continua a ser um obstáculo significativo. Ana Jorge sublinha ainda a necessidade de uma abordagem diferenciada para grupos de risco, alertando que nem todas as populações têm as mesmas necessidades em saúde e que o modelo de resposta deve refletir essa realidade. As declarações reacendem o debate sobre a organização do Serviço Nacional de Saúde, numa altura em que as urgências continuam sob pressão e em que a articulação entre hospitais, cuidados primários e rede de cuidados continuados se mantém como um dos principais desafios do sistema.