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Mulheres, jovens e LGBTQI+ são os mais afetados pelos cortes internacionais no VIH

LUSA
20-01-2026 18:42h

Mulheres, jovens e pessoas LGBTQI+ são os mais afetados pelos cortes da ajuda internacional, que enfraquecem a resposta global ao VIH, reduzindo serviços essenciais de prevenção, tratamento e apoio, alerta um inquérito divulgado pelo Grupo de Ativistas em Tratamentos.

Um ano após o congelamento do financiamento da ajuda externa dos EUA, a Coalition PLUS, parceira do GAT - Grupo de Ativistas em Tratamentos, e os seus parceiros (Sidaction, Frontline AIDS, Aidsfonds) realizaram um inquérito junto de 79 organizações comunitárias em 47 países para avaliar o impacto desta decisão que “provocou ondas de choque na resposta global ao VIH”, refere o GAT em comunicado.

O diretor-geral adjunto do GAT, Ricardo Fernandes, disse à Lusa que o congelamento do financiamento teve “um grande impacto” numa série de áreas que estavam a permitir a redução ou a estagnação de novas infeções e o tratamento dos doentes.

“Esta redução de financiamento chega quase aos 80% em termos de prestação de serviços, desde os tratamentos das infeções sexualmente transmissíveis, à cessação dos apoios em relação às populações chaves, que já são discriminadas nestes contextos, à redução de recursos humanos. Portanto, tem consequências gravíssimas de rutura de ‘stocks’ de medicamentos, de reagentes para se fazer análises, etc”, alertou.

As principais conclusões do inquérito apontam que 77% das organizações afirmam que a redução de financiamento afetou a prestação de serviços, 81% indicam que o acesso à PrEP (tratamento preventivo) funciona a menos de metade relativamente a janeiro de 2025 e 56% reportaram um impacto na disponibilidade de consumíveis.

A grande maioria (95%) referiu que os produtos para tratamento de infeções sexualmente transmissíveis (IST) não estão disponíveis ou estão menos disponíveis e 69% das organizações de apoio a pessoas com VIH estão a operar a menos de metade da capacidade.

O inquérito revela ainda “a cessação completa de serviços para pessoas trans e pessoas que usam drogas em 10% das organizações; redução ou suspensão de serviços para homens que têm sexo com homens em 85% das organizações e para pessoas trabalhadoras do sexo em 82%”.

Além da prestação de serviços, a capacidade de funcionamento das organizações foi comprometida: 63% reportam impacto direto nas suas operações, 22% perderam pelo menos metade do seu orçamento, incluindo 9% que perderam mais de 75%.

Os recursos humanos foram particularmente afetados: 65% das organizações reportam impacto nas equipas. No total, 2.275 postos de educadores de pares e trabalhadores comunitários de saúde foram afetados pela suspensão ou cessação de apoios.

Citando projeções, Ricardo Fernandes alertou que há uma série de consequências que atrasarão o esforço global que o mundo estava a fazer para acabar com a infeção do VIH como problema de saúde pública até 2030.

“O que vamos ter é um recrudescimento de infeções no futuro. Isso é o que as estimativas apontam graças a estas medidas que foram tomadas”, lamentou, sublinhando que o impacto será sentido globalmente, incluindo em Portugal, se não houver investimento contínuo.

Apesar de existirem várias ferramentas disponíveis, os países do sul global com maiores dificuldades enfrentam obstáculos significativos para implementar respostas eficazes e recuperar os números que permitiriam eliminar o VIH como problema de saúde pública até 2030, vincou Ricardo Fernandes.

O estudo também denuncia uma mudança preocupante na cooperação internacional, com acordos bilaterais a substituírem o multilateralismo, dificultando a visão global coordenada necessária para enfrentar epidemias.

O responsável defendeu que uma epidemia não se combate apenas localmente, é necessária uma estratégia global, e alertou que o desmantelamento de estruturas como a ONUSIDA fragiliza esta coordenação.

A Coalition PLUS defende ser urgente mobilizar recursos, garantindo continuidade dos cuidados, prevenção (em especial a PrEP), apoio às populações-chave e fortalecimento das organizações comunitárias, evitando que milhões de novas infeções se concretizem até 2030, como projetado pela ONUSIDA.

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