A Federação Nacional dos Médicos (Fnam) quer conhecer o plano de contingência do Hospital de Penafiel onde diz saber que há três dias 70 doentes permaneceram internados nos corredores da urgência, situação que se poderá agravar.
“Existe um plano de contingência nacional. Mas depois, cada ULS [Unidade de Saúde Local] tem que adaptar à sua realidade. O plano de Penafiel não é público. Exigimos conhecer o plano de contingência, que seja dado conhecimento a todos os médicos, porque a situação não pode continuar”, disse a presidente da Fnam.
Em declarações à agência Lusa, Joana Bordalo e Sá disse ter tido conhecimento, graças a um “grito de alerta” de médicos do Hospital Padre Américo, da ULS Tâmega e Sousa, em Penafiel, que “há três dias 70 doentes estavam internados sem condições nenhumas nos corredores do serviço de urgência”.
“Ontem [quarta-feira] tinha reduzido para 40, mas o que se prevê é que haja sempre um agravamento agora até ao fim de semana, porque também tem sido este o padrão”, disse a presidente da Fnam que inclui o Sindicato dos Médicos do Norte.
Num comunicado enviado hoje à Lusa, a Fnam conta que este sindicato reuniu com o conselho de administração da ULS Tâmega e Sousa no dia 23 de dezembro “tendo sido então reafirmado que estaria a ser implementado um plano de contingência”.
“Três semanas depois, esse plano continua a não ser conhecido pelos profissionais que diariamente asseguram cuidados em contexto de rutura assistencial”, lê-se no comunicado.
Joana Bordalo e Sá atribui ainda culpas à tutela por em causa estar “um hospital subdimensionado que dá resposta a meio milhão de habitantes”, uma situação “conhecida há muito e cuja resolução o Governo adia”.
“O que este conselho de administração está a fazer é gerir uma escassez que existe, mas a verdade é que quem criou esta escassez, ou quem não faz um contraponto a esta escassez, é mesmo o Governo de [Luís] Montenegro. Neste caso de Penafiel, a situação até acaba por ser caricata. O hospital está completamente subdimensionado, nada está a ser feito, mas a verdade é que quase que do outro lado da rua foi inaugurado, no fim de outubro, um dos maiores hospitais privados da região do Tâmega Sousa. A secretária de Estado esteve na inauguração e até enalteceu o investimento privado de 50 milhões de euros”, acrescentou a líder da Fnam.
A Lusa contactou a ULS Tâmega e Sousa que, reconhecendo que atravessa “um período de enorme pressão assistencial transversal ao Serviço Nacional de Saúde”, apontou que o “atual volume de afluência e a necessidade de internamento, motivados maioritariamente por infeções respiratórias agudas e descompensação de doença crónica, enquadram-se nos cenários de ativação dos níveis de contingência (níveis 2 e 3) previstos no Plano de Resposta Sazonal de Inverno”.
“Apesar dos constrangimentos físicos e da sobrelotação, todas as medidas excecionais vão sendo tomadas para garantir a prestação de cuidados, com segurança e dignidade para os doentes que recorrem aos nossos serviços”, garante o conselho de administração.
Segundo a ULS Tâmega e Sousa, o Plano Sazonal desta unidade está atualmente no nível 3 e, além das medidas previstas neste nível, foram implementadas outras, entre as quais “abertura de Áreas de Contingência através do funcionamento pleno das Unidades de Transição para o Internamento 1 e 2, que representam um reforço de até 66 camas adicionais sob a responsabilidade do Serviço de Medicina Interna”.
Também está a ser reforçada a capacidade externa, com aumento da contratualização de camas ao setor social e privado para doentes agudos e crónicos, bem como o reforço da hospitalização domiciliária.
No campo dos recursos humanos, o conselho de administração fala em “reforço das equipas no apoio assistencial no Internamento do Serviço de Medicina Interna, com recurso a médicos de outras especialidades, nomeadamente Pneumologia, Infecciologia, Endocrinologia e Nefrologia, assim como de Enfermagem”.
Na resposta à Lusa, a ULS Tâmega e Sousa fala ainda e “ajuste da atividade” que se traduz em suspensão temporária da atividade cirúrgica programada não urgente, conforme protocolo de nível 3 “para libertar camas de internamento e equipas para o doente agudo”.
A ULSTS junta o Hospital Padre Américo (Penafiel), o Hospital de São Gonçalo (Amarante), bem como os centros de saúde, e serve uma população de cerca de meio milhão de pessoas, de 12 Municípios.
A 22 de dezembro, numa posição divulgada pela Fnam, médicos do Serviço de Medicina Interna da ULS Tâmega e Sousa alertaram para a sobrecarga assistencial no internamento e avisavam que não aceitariam mais doentes em condições “inseguras ou indignas” fora das enfermarias ou das unidades de transição.
Alertaram também que, uma vez atingido o limite máximo de 166 doentes internados no Serviço de Medicina Interna na Unidade Padre Américo, em Penafiel, não tomariam decisões que colocassem em risco os doentes.
No mesmo dia, a Secção Regional do Norte da Ordem dos Médicos (SRNOM) manifestou preocupação com o alerta dos internistas e no dia seguinte a ULS Tâmega e Sousa reconheceu estar sujeita a uma “elevadíssima pressão” devido ao aumento da afluência de doentes e de internamentos e garantiu “diálogo permanente” com os médicos internistas.