SAÚDE QUE SE VÊ

Uso e legalização da canábis em debate na conferência europeia sobre comportamentos aditivos

LUSA
23-10-2019 10:33h

O uso e a legalização da canábis vão estar em debate na conferência europeia sobre comportamentos aditivos e dependências, que começa quarta-feira em Lisboa, com especialistas a alertarem que a perigosidade deste produto é “cada vez maior”.

“Um dos grandes debates é saber se o caminho que estamos a percorrer na área da canábis pode ser benéfico ou pode ser prejudicial e, portanto, queremos ouvir” os especialistas sobre o tema, disse hoje à agência Lusa o copresidente da Lisbon Addictions 2019, Manuel Cardoso.

O subdiretor-geral do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências (SICAD), uma das entidades promotoras do congresso, adiantou que vai ser um debate “tipo prós e contras” para conhecer as várias posições sobre o tema.

“Nós vimos de um paradigma de ilegalidade e até de crime na maior parte dos países - crime que pode ser punido em alguns deles com pena de morte - para uma situação de legalização”, adiantou Manuel Cardoso.

No caso da canábis, sustentou, “nós sabemos que a perigosidade do produto é cada vez maior, porque a quantidade do químico mais prejudicial à saúde e mais psicoativo é cada vez maior”.

Perante estes dados, “faz ou não sentido legalizar para controlar, para diminuir, para pôr um padrão, uma tabela”, questionou.

“No dia em que legalizarmos [o uso recreativo da canábis], regulando o comércio, definindo teores máximos para os produtos que são vendidos, provavelmente vai haver a seguir produtos clandestinos com as doses mais altas”, advertiu Manuel Cardoso.

Portanto, todas as políticas que forem assumidas “têm sempre um aspeto que pode ser positivo”, mas também “há de ter aspetos que podem ser considerados negativos e é isso que é preciso debater”.

Para o responsável, é preciso “ir mais longe” na investigação para saber o que realmente acontece quando houver uma regulação dos consumos.

“Para decidirmos que caminhos queremos percorrer, o ideal é que a ciência dê as várias hipóteses de política a seguir, sabendo os riscos que corre tomando uma posição ou tomando outra”, sustentou.

Outros “grandes debates” que vão decorrer na conferência são se “a indústria pode ser uma ajuda ou é sempre um inimigo do saber e do querer evoluir nestas áreas” e “como é que pode a sociedade civil colaborar na construção de respostas para as adições, para os problemas que as pessoas têm ou podem vir a ter das dependências”, salientou.

Com o tema “O futuro das adições: novas fronteiras para a política, a prática e a ciência”, a conferência, que decorre até sexta-feira no Centro de Congressos de Lisboa, conta com a presença de cerca de 1.300 investigadores, profissionais da área e decisores políticos oriundos de 80 países.

Promovida pelo SICAD, pelo Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, pelo Jornal Addiction e pela International Society of Addiction Journal Editors, a conferência tem como “grande objetivo” a partilha de experiências e trabalhos de investigação nas várias áreas das drogas.

Serão debatidos os desafios relacionados com substâncias ilícitas, álcool, tabaco, jogo, internet e outros comportamentos aditivos e apresentados os estudos mais recentes nessas matérias.

Durante os três dias, serão realizadas cerca de 850 apresentações distribuídas por 150 sessões que vão desde plenários, debates, ‘workshops’, visitas guiadas e ‘e-posters’.

“É o sítio certo para encontrar aqueles investigadores, aquelas referências bibliográficas que só encontrávamos nos livros. Esses investigadores estão aqui, vão discutir connosco, vão ser oradores principais em sessões plenárias”, disso o copresidente da conferência.

MAIS NOTÍCIAS