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Sociedade científica quer “democratizar” rastreios cardiovasculares através das farmácias

Lusa
27-09-2026 10:30h

A Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC) defende o envolvimento das farmácias nos rastreios cardiovasculares regulares, alertando que o país precisa de um plano de prevenção para responder às 30 mil mortes anuais provocadas por essas doenças.

“Nós temos a possibilidade de tornar este tipo de rastreios acessível, seja nas farmácias, seja nos locais de trabalho, e complementar com informação que vai ser crucial para que cada utente, individualmente, seja capaz também de tomar conta da sua saúde”, adiantou à agência Lusa a presidente da sociedade científica, a propósito do Dia Mundial do Coração, que se assinala na terça-feira.

As doenças cardiovasculares, como o enfarte e o acidente vascular cerebral (AVC), continuam a ser a principal causa da mortalidade em Portugal, responsáveis por uma morte a cada 15 minutos, o que leva Cristina Gavina a realçar a necessidade de “democratizar o acesso” dos portugueses ao rastreio cardiovascular, generalizando-o à semelhança do que já acontece com a despistagem de outras doenças.

Nesta perspetiva, as “farmácias têm que ser mais do que sítios simples para vender medicação ou vender cosméticos e suplementos”, defendeu a médica, salientando que se trata apenas de rastrear doenças cardiovasculares, através dos fatores de risco críticos como a tensão arterial, o colesterol e a glicemia.

“Nós estamos a falar de rastrear, nós não estamos a falar de tratar. Isso vai continuar a ser, obviamente, a função depois do médico e do enfermeiro de família”, realçou a presidente da SPC.

Segundo disse, a generalização do rastreio dessas “doenças silenciosas” deveria ser integrado num Plano Nacional de Saúde Cardiovascular, com o contributo das sociedades científicas desta área e que apostasse na prevenção, tendo em conta que “80% desta mortalidade prematura pode ser efetivamente alterada ou prevenida através do controlo dos fatores de risco”.

“O que nós pretendemos é que cada cidadão seja capaz de ele próprio conhecer o seu risco cardiovascular e tomar uma atitude”, que pode até passar pela alteração de estilos de vida e que não tem de ser feito necessariamente nos centros de saúde, afirmou Cristina Gavina.

De acordo com a especialista, esses rastreios regulares, abrangendo principalmente a idade ativa, em que a mortalidade prematura pode ser prevenida, deveriam realizar-se a partir dos 35 anos de idade, sendo repetidos a cada cinco anos, com exceção das pessoas consideradas de alto risco, que teriam de os realizar mais frequentemente.

“Isto tem de ser encarado pela nossa população como uma responsabilidade individual”, alertou a presidente da sociedade científica que, entre 29 de setembro e 04 de outubro, vai promover rastreios gratuitos com o envolvimento de mais de 160 farmácias que aderiram à campanha “Coração Aceso”, desenvolvida no âmbito da iniciativa europeia EU Screening Week.

Na prática, quem aderir a esses rastreios gratuitos nas farmácias pode ficar a conhecer o seu risco cardiovascular, que pode ser baixo, intermédio, alto ou muito alto, recebendo um cartão com toda essa sua informação.

Segundo adiantou, Portugal tem-se concentrado fundamentalmente no tratamento da doença aguda, área em que “têm sido feitos progressos fantásticos”, através do Programa Nacional Prioritário para as Doenças Cerebrocardiovasculares, mas “estão ainda coisas por fazer” ao nível da prevenção.

De acordo com os últimos dados oficiais, cerca de 30 mil pessoas morreram em Portugal de doenças cardiovasculares em 2023, tendo-se registado um decréscimo da mortalidade por essas causas, principalmente, nas pessoas com mais de 70 anos.

Cristina Gavina associou esta evolução positiva à “melhoria enorme na prestação de cuidados”, mas alertou para a possibilidade de, nos próximos anos, se registar um aumento da mortalidade prematura.

Para isso poderá contribuir a estimativa de que cerca de metade dos hipertensos estão ainda por diagnosticar, sendo este o principal fator de risco para o AVC, enquanto o número de diabéticos “tem vindo a crescer de forma vertiginosa”, avisou a especialista.

“Isso mostra claramente que nós temos que atuar precocemente para evitar esta mortalidade e toda a incapacidade que também está associada ao enfarte e ao AVC em pessoas nomeadamente em idades ativas”, salientou a presidente da sociedade científica.

As preocupações da SPC no sentido de Portugal passar a dispor de um Programa Nacional de Saúde Cardiovascular já foram transmitidas aos partidos na Assembleia da República e a Adalberto Campos Fernandes, que está a coordenar o Pacto para a Saúde proposto pelo Presidente da República.

Em 2023, registaram-se mais de 100 mil internamentos por doenças cardiovasculares em hospitais públicos.

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