As unidades do setor convencionado que fazem exames médicos alertaram hoje para a urgência de atualizar a tabela de preços, avisando que a perda de capacidade de resposta reduz o acesso dos utentes.
Em declarações à Lusa, o presidente da Associação Nacional das Unidades de Gastrenterologia (ANUG), Pedro Carrilho, explicou que a tabela foi definida há mais de 10 anos e, daí par cá, os custos subiram, tanto em termos de material como de recursos humanos, e há unidades que correm o risco de fechar.
"A tabela está completamente deteriorada. Não só pelo índice de preços ao consumidor e pela inflação, mas, pior ainda, na saúde os custos têm sido galopantes e os custos com recursos humanos também. Basta pensar quanto era o salário em 2014 e quanto é em 2026", exemplificou.
O responsável avisou que muitas unidades não estão a conseguir acompanhar o aumento dos custos e, para tentarem manter-se em funcionamento, concorrem diretamente com as outras unidades privadas, ou com os hospitais privados, que pagam mais do que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) pelos exames.
"Há unidades que estão a começar a ter prejuízo e correm o risco de fechar", admitiu, lembrando que isso afunila a resposta em termos de exames médicos para os utentes.
Segundo a ANUG, muitas unidades têm tido dificuldade para mobilizar as equipas necessárias para realizar os procedimentos ao abrigo das convenções do SNS, incluindo gastroenterologistas, anestesiologistas e enfermeiros, e a manutenção desta situação pode traduzir-se numa redução efetiva da capacidade assistencial, aumentando a dificuldade para os utentes conseguirem fazer alguns exames.
"Algumas vão fechar, outras vão-se transformar e vão dar resposta fora do Serviço Nacional de Saúde. No final, quem vai ser prejudicado será sempre o doente, que vai ter de pagar para fazer o seu exame", lembrou Pedro Carrilho, acrescentando: "Quem tiver essa possibilidade, porque quem não tiver obviamente não paga e fica com o problema por resolver".
O responsável alertou ainda para a importância dos exames nesta área, recordando que, em 2025, a rede convencionada realizou 1.708.051 procedimentos de Endoscopia Gastrenterológica, correspondentes a 646.165 requisições, através de 156 entidades, o que equivale a 4.680 atos por dia.
Esta rede constitui uma parte integrante da resposta assistencial pública, recebendo utentes referenciados pelo SNS, prestando cuidados segundo regras públicas e sendo remunerada em valores definidos pelo Estado.
Pedro Carrilho sublinhou ainda a "lógica preventiva" dos exames na área da gastrenterologia: "Retiram-se lesões, retiram-se pólipos que podem degenerar ou então encontram-se situações oncológicas numa fase em que ainda é possível corrigir".
"São detetados 10.500 casos de cancro do cólon por ano", acrescentou o responsável, alertando que se não houvesse esta resposta haveria um problema de saúde pública.
Além dos exames que os utentes marcam diretamente nas unidades, estas também recebem pedidos dos hospitais públicos, que têm dificuldade em gerir as suas listas de espera.
"Os hospitais públicos são ajudados por estas unidades, que fazem os seus exames e ajudam a limpar as listas de espera (…). Por isso, não se percebe como é que isto não é tratado com a emergência que merece", lamenta.
A desatualização verifica-se também na nomenclatura dos atos.
Segundo a ANUG, a tabela do SNS para 2026 contempla 118 atos na área da Gastrenterologia, enquanto apenas 12 encontram correspondência na tabela convencionada, o que representa uma cobertura de apenas 10,2%, um valor que, para a associação, evidencia a discrepância entre a atual realidade da especialidade e a estrutura administrativa disponível aos prestadores convencionados.