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Campanha 'online' de incentivo a excisão no Mali impacta mulheres e raparigas

Lusa
09-09-2026 12:16h

O Instituto de Estudos de Segurança alertou hoje para o facto de as mulheres e raparigas malianas estarem a sofrer um novo incentivo à mutilação genital feminina numa campanha 'online' que defende a excisão, prática legal no país.

"Uma campanha coordenada nas redes sociais em defesa da mutilação genital feminina (MGF) surgiu no Mali em agosto, reacendendo o debate na sociedade não apenas sobre a integridade física das mulheres, mas também sobre tradição e soberania nacional", explicou a diretora regional para a África Ocidental, o Sahel, a Bacia do Lago Chade e a África Central do Instituto de Estudos de Segurança (ISS, na sigla em inglês), Ornella Moderan.

Segundo o artigo publicado pelo ISS, uma Organização Não-Governamental (ONG) do Mali criou uma campanha com a mensagem "Já chega" e espalhou cartazes pela capital, Bamaco, a denunciar a prática. No entanto, contas anónimas 'online' começaram a deturpar a iniciativa. "Homens de diferentes origens são retratados a sorrir ou a fazer um sinal positivo, rodeados pelas cores nacionais e pela mensagem: "No Mali, sim à excisão! Vamos proteger as raparigas e construir o seu futuro", lamentou.

Na campanha - cuja origem não se conhece exatamente e cujo conteúdo é gerado por inteligência artificial - a oposição à MGF é criticada como sendo parte de uma agenda estrangeira. 

A analista referiu que, "embora a maioria dos homens cujos retratos são utilizados na campanha a tenha defendido, alguns denunciaram a utilização não autorizada da sua imagem ou retiraram o seu apoio na sequência da pressão pública".

Neste país do Sahel, a remoção de partes dos órgãos genitais de raparigas - muitas vezes sem anestesia e com risco de complicações fatais - continua a ser uma prática generalizada.

Segundo a investigadora, um estudo de 2023 estimou que a MGF causava cerca de 44 mil mortes adicionais por ano em 15 países africanos, incluindo o Mali.

"Isso faz da prática uma das principais causas de morte entre raparigas e mulheres jovens nos locais onde é praticada", sublinhou.

Além disso, alertou, para as que sobrevivem, as consequências são graves, tanto imediatas como a longo prazo. Incluem dor intensa e hemorragias, infeções e choque emocional no momento da excisão. Ao longo da vida, podem manifestar-se através de dor crónica, complicações urinárias e menstruais, maior risco de partos difíceis e traumas psicológicos duradouros.

Ornella Moderan contextualizou que as defensoras locais dos direitos das mulheres opõem-se à prática há décadas.

Por sua vez, o Código Penal do Mali de 2024 condena a violência em termos gerais, mas não menciona especificamente a MGF.

"Essa lacuna legal tem tido custos elevados para as mulheres e raparigas malianas. O mais recente Inquérito Demográfico e de Saúde do Mali revela que 89% das mulheres entre os 15 e os 49 anos foram submetidas à excisão, uma das taxas mais elevadas do mundo", declarou.

Por outro lado, segundo a analista, entre as raparigas dos 0 aos 14 anos - faixa etária em que a prática geralmente ocorre - a prevalência é menor, de 70%, e caiu dos 74% registados em 2018.

"Isso sugere que a prática pode estar a diminuir lentamente", congratulou-se, ressalvando que o "declínio é modesto e pode ser revertido", pois "muitas pessoas no Mali - tanto mulheres como homens - continuam a apoiar a MGF, acreditando que se trata de uma obrigação religiosa ou de uma tradição que deve ser preservada", declarou.

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