A epidemia do vírus Ébola na República Democrática do Congo (RDCongo) está “longe de estar controlada”, alertou hoje Tedros Adhanom Ghebreyesus, o diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS), avisando sobre um elevado risco de propagação internacional.
"Há três meses, declarei que a epidemia da doença pelo vírus Bundibugyo na RDCongo constituía uma emergência de saúde pública de interesse internacional. Desde então, a epidemia espalhou-se rapidamente e o risco de uma propagação nacional e internacional maior continua elevado", afirmou, na abertura de uma reunião do comité de emergência sobre o vírus Ébola.
"Quase 5.000 pessoas foram até agora infetadas e mais de 2.300 morreram, em seis províncias e 55 zonas de saúde. É preciso sermos francos: a epidemia está longe de estar controlada", afirmou.
A RDCongo declarou a 15 de maio o 17.º surto de Ébola, em regiões do norte e do leste onde a presença do Estado é fraca, as infraestruturas de saúde são escassas e a resposta é sobrecarregada pelo aumento rápido de casos.
É a segunda vez que o comité de emergência da OMS se reúne desde que a organização declarou, a 17 de maio, uma emergência de saúde pública de âmbito internacional, o seu segundo nível de alerta mais elevado.
A OMS ainda não sabe quando é que o comité vai publicar as suas recomendações, no entanto, parece improvável que os especialistas recomendem levantar o alerta. Mas poderão emitir novas recomendações e alterar os níveis de alerta.
Atualmente, a OMS considera o nível de risco para a saúde pública “muito elevado” para a RDCongo, “elevado” para Uganda ou outros países fronteiriços com a RDCongo, e “baixo” para o resto de África e do mundo.
A epidemia de 2018-2020 no leste da RDCongo, considerada até então como a mais mortífera da história do país, causou 2.299 mortos em 3.381 casos confirmados, segundo os números da OMS, baseados nos dados das autoridades congolesas.
Além disso, em três meses, sete vezes mais casos e cinco vezes mais mortes foram registadas na RDCongo do que nos três primeiros meses da maior epidemia de Ébola da história, que atingiu a África Ocidental em 2014, segundo a agência de saúde da União Africana (Africa CDC).
A epidemia atual na RDCongo é agora "a segunda maior" de Ébola "registada e está a progredir mais rapidamente do que todas as anteriores", destacou o diretor da OMS.
"Ela [epidemia] é alimentada pela insegurança, pelos deslocamentos de populações e pelos intensos movimentos de pessoas ao longo das estradas, cursos de água e vias de acesso aos sítios mineiros", explicou.
Segundo recentes informações da OMS, o vírus do Ébola começou a circular no leste da RDCongo em fevereiro, embora uma investigação publicada na revista "Science", no final de julho, tenha sugerido que as primeiras infeções teriam ocorrido ainda antes, pelo menos em janeiro.
Após a declaração da epidemia em Ituri, o vírus propagou-se para a vizinha Uganda, país que se declarou "livre do Ébola" a 28 de julho, após registar 20 casos confirmados, incluindo 15 casos considerados importados da RDCongo, entre os quais se contaram duas mortes.
A epidemia está associada à estirpe de Bundibugyo, cuja taxa de letalidade oscila entre os 30% e os 50% e para a qual não existe vacina autorizada nem tratamento específico, segundo a OMS.
O vírus do Ébola transmite-se por contacto direto com fluidos corporais de pessoas ou animais infetados e provoca febre hemorrágica grave, vómitos, diarreia e hemorragias internas.