A presidente da associação portuguesa Helpo alertou hoje para o aumento da pressão nas infraestruturas escolares nas províncias do norte de Moçambique, associando o fenómeno ao crescimento populacional e fluxo de deslocados de Cabo Delgado.
"Há claramente uma pressão demográfica, que é visível. Em Nampula, então, é muito visível um aumento populacional muito grande", disse hoje, em entrevista à Lusa, Selma Uamusse, presidente daquela Organização Não-Governamental para o Desenvolvimento (ONGD) com sede em Portugal.
Após visitar ao longo de duas semanas os projetos financiados pela Helpo nas províncias de Nampula e Cabo Delgado, a responsável disse ter encontrado escolas e comunidades a lidar com um aumento significativo da população, agravado pela chegada de deslocados de Cabo Delgado, província rica em gás natural e afetada por ataques armados desde outubro de 2017, bem como ao aumento da procura de serviços básicos, sobretudo na área da educação.
"Em Nampula também há muitos deslocados de Cabo Delgado que fazem com que as infraestruturas existentes, os equipamentos escolares, as escolas, não sejam suficientes para tantos alunos e depois, consequentemente, não há salas de aulas suficientes, muitas turmas são muito grandes, falta de professores", declarou.
Segundo a presidente da Helpo, o aumento do número de alunos está a colocar uma pressão acrescida sobre comunidades já vulneráveis da região, desafiando a capacidade de resposta das escolas e dos programas de apoio desenvolvidos pela organização.
"Estamos a falar de comunidades muito grandes que têm muitas pessoas em situação de grande vulnerabilidade", afirmou.
Selma Uamusse destacou ainda que o crescimento do número de beneficiários obriga a organização a adaptar continuamente os seus programas de assistência, nomeadamente nas áreas da educação e da alimentação escolar: "Para nós, o desafio é conseguir esticar aquilo que seria, se calhar, um orçamento para 500 crianças, passa a ter de ser um orçamento para 2.000 crianças".
Além das consequências da insegurança, a responsável apontou os impactos dos ciclones sobre as infraestruturas educativas, sobretudo na Ilha de Moçambique, na província de Nampula, onde a Helpo implementa vários projetos de desenvolvimento social, defendendo construções mais resilientes às alterações climáticas.
"É muito importante que as construções futuras possam ser feitas de uma forma planeada, porque sabemos que a realidade das situações climáticas vão continuar a assolar", defendeu.
Em Cabo Delgado, Selma Uamusse destacou os desafios enfrentados pelas comunidades afetadas pelo conflito armado, apontando a necessidade de mais infraestruturas escolares e do reforço dos programas de alimentação nas escolas apoiadas pela Helpo.
Segundo a presidente da ONGD, uma das principais preocupações transmitidas pelas comunidades visitadas foi a insuficiência de salas de aula para responder ao elevado número de alunos, bem como a necessidade de expandir o lanche escolar.
A responsável sublinhou que o lanche escolar continua a ser fundamental para muitas famílias, uma vez que constitui uma das poucas refeições a que muitas crianças têm acesso através da escola.
Durante a visita, Uamusse referiu ter ficado particularmente impressionada com a determinação de jovens provenientes de zonas afetadas pelo conflito em Cabo Delgado. Essa insurgência armada, reclamada por movimentos extremistas e que, segundo dados de organizações no terreno, já provocou mais de 6.600 mortos e 1,2 milhões de deslocados na província.
"A minha primeira grande impressão é de grande bravura por parte de muitos alunos que vêm de comunidades muito distantes, que conseguiram escapar aos insurgentes e que conseguem ter força e ânimo para estudar e concluir o 12.º ano", afirmou.
Para a presidente da Helpo, esta resiliência contrasta com as dificuldades ainda existentes no terreno, defendendo um reforço do apoio à educação e à assistência alimentar.
Segundo Uamusse, a redução de alguns fluxos internacionais de ajuda torna ainda mais importante o papel dos padrinhos individuais e dos doadores privados no apoio humanitário na região.
"O aumento da pressão demográfica faz com que haja uma maior necessidade de financiamento", alertou.
Para a responsável, o apoio direto de padrinhos constitui atualmente uma das fontes mais fiáveis para sustentar as atividades da organização.
Apesar dos desafios, Selma Uamusse destacou avanços registados nas comunidades apoiadas pela Helpo, apontando para um aumento do número de alunos que prosseguem os estudos até ao ensino secundário.
A presidente da organização realçou também os resultados de programas de orientação vocacional, digitalização do ensino e capacitação de jovens, afirmando ter encontrado, durante a visita, vários antigos beneficiários que prosseguiram estudos no ensino superior, criaram os seus próprios negócios ou se tornaram voluntários e colaboradores da Helpo.
"Pude ouvir muitos testemunhos de histórias de sucesso", afirmou a responsável, acrescentando que alguns dos jovens apoiados pela organização "eram apadrinhados, tornaram-se voluntários da Helpo e eventualmente colaboradores também".
Sobre o futuro da intervenção da Helpo em Moçambique, Uamusse garantiu que a organização pretende continuar a expandir programas de bolsas universitárias, apoio ao ensino digital e orientação vocacional, embora tenha sublinhado que a concretização desses objetivos dependerá da disponibilidade de financiamento.
A presidente da organização afirmou que continua a haver muito por fazer, lamentando que existam ainda escolas em Cabo Delgado onde os alunos assistem às aulas ao ar livre por falta de salas.
Presente em Moçambique desde 2008, a Helpo desenvolve projetos nas províncias de Nampula e Cabo Delgado, na promoção do desenvolvimento através da educação, nutrição e saúde materno-infantil, ajuda humanitária e de emergência. A ONGD refere que já construiu 149 salas de aula, entregou 15.592 bolsas de estudo para o ensino secundário, 61 para o ensino superior e implementou 15 projetos, que chegaram a 159.511 beneficiários, em 2025.