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Acesso precoce às redes sociais tem impactos visíveis nas salas de aula e consultórios

LUSA
29-06-2026 07:35h

O acesso precoce às redes sociais tem impactos difíceis de reverter no desenvolvimento cognitivo e socioemocional das crianças, identificados na sala de aula e consultórios por professores e psicólogos, que defendem uma maior regulação.

“Uma das primeiras coisas que noto é a capacidade de reter a atenção por um período consistente, que dê para aprender alguma coisa, para reter conhecimento”, começa por relatar Rita Mendes.

Professora de Música, Rita Mendes é, ela própria, ativa nas redes sociais, onde conta com dezenas de milhares de seguidores, mas tem uma posição crítica quanto à presença de menores naquelas plataformas: não deve existir.

Em fevereiro, a Assembleia da República aprovou, na generalidade, um projeto de lei do PSD que propunha regular o acesso às redes sociais a menores de 16 anos, uma via recentemente discutida por vários países, que reconhecem os riscos para as crianças e jovens.

Há duas semanas, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, anunciou que o Reino Unido iria juntar-se à Austrália na proibição do acesso de menores de 16 anos às principais aplicações de redes sociais. Na altura, Rita Mendes aplaudiu a decisão, num vídeo publicado no TikTok.

A propósito do Dia Mundial das Redes Sociais, que se assinala hoje, a Lusa ouviu a professora e a Ordem dos Psicólogos sobre como os riscos do acesso precoce são percetíveis na sala de aula e nos consultórios.

Com alunos do pré-escolar ao 3.º ciclo, Rita Mendes diz que é fácil distinguir os alunos que têm acesso às redes sociais, daqueles que não têm.

Além da dificuldade de concentração, identifica entre os mais “digitais” lacunas no vocabulário, uma maior dificuldade em exprimirem sentimentos ou, por exemplo, explicarem algum conflito que tenha ocorrido durante o recreio.

“Nas redes sociais existe uma constante assimilação de conteúdos, mas não há apropriação de nada, porque o cérebro não tem tempo para reter”, procura justificar, colocando, em contraponto, a atividade da leitura, em que “o cérebro tem tempo para se apropriar do texto e para o processar”.

Júlio França, psicólogo, aponta igualmente o impacto do acesso precoce no desenvolvimento da linguagem e explica que o motivo relaciona-se, em particular, com a inexistência de um contexto adequado para o desenvolvimento dessas competências.

“Seja no convívio com os pais, com os amigos ou no jardim-de-infância, há todo um conjunto de comportamentos que são comportamentos-modelo e que facilitam o desenvolvimento da linguagem”, refere, acrescentando que num contexto inadequado, “a linguagem pode desenvolver-se, mas com erros”.

Entre as crianças mais pequenas, Júlio França, que integra o Conselho de Especialidade de Psicologia da Educação da Ordem dos Psicólogos Portugueses, aponta ainda impactos na regulação de emoções e no desenvolvimento da motricidade, mas também entre os mais velhos existem riscos decorrentes da exposição aos ecrãs, sobretudo se for por um tempo excessivo.

“Se falarmos de crianças mais velhas, as redes sociais podem trazer outro tipo de consequências, associadas à exposição a conteúdos que não são apropriados para aquela fase de desenvolvimento”, sublinhou, referindo, como exemplo, conteúdos violentos, de incitação ao ódio ou de cariz sexual.

A secundarização das interações sociais, por outro lado, compromete o desenvolvimento de competências socioemocionais e, a esse propósito, o psicólogo recorda o impacto do confinamento durante a pandemia da covid-19, mas destaca também o potencial aditivo das plataformas digitais.

“Noto isso também com algumas crianças com quem trabalho. Parece que o tempo nunca é suficiente, é preciso sempre mais”, relata.

Júlio França e Rita Mendes reconhecem que “nem tudo é mau” nas redes sociais, mas concordam que, nos dois pratos da balança, os aspetos negativos pesam significativamente mais do que eventuais benefícios.

A propósito da opção por proibir o acesso de menores às redes sociais, a professora considera que seria o cenário ideal, mas admite que é um objetivo desafiante, porque, frequentemente, as crianças demonstram maior conhecimento das novas tecnologias face aos adultos.

“Existem alguns pais que deixam os filhos usar redes sociais, mas fazem um policiamento muito ativo sobre o que é consumido e sobre o tempo que os filhos passam no telemóvel”, relata como exemplo positivo, ressalvando, no entanto, “que a maioria dos pais não tem essa disponibilidade”.

“Não existindo regulação, os perigos são vários”, sublinha, por outro lado, Júlia França, que alerta que muitas dessas consequências “podem depois ser muito difíceis de resolver”.

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