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Grandes farmacêuticas recorrem ao “manual do Reino Unido” para pressionar capitais europeias sobre preços dos medicamentos

REUTERS
17-06-2026 09:53h

As empresas farmacêuticas globais, confrontadas com resistência das capitais europeias relativamente aos preços dos medicamentos, estão a recorrer a uma estratégia que lhes trouxe sucesso recente no Reino Unido: ameaças de retirar investimentos e planos de expansão para pressionar os decisores políticos.

O alvo mais recente tem sido a Alemanha, que está a debater legislação para reforçar o controlo da despesa com medicamentos. O sector conseguiu uma vitória no Reino Unido quando o governo concordou em aumentar os gastos com medicamentos como parte de um acordo mais amplo para evitar tarifas impostas por Washington.

A Pfizer escreveu na semana passada ao chanceler alemão que os seus investimentos na Alemanha estavam em risco devido à política de preços dos medicamentos, enquanto a AstraZeneca alertou que poderá não lançar novos medicamentos no país se as alterações avançarem.

No início de junho, a Eli Lilly anunciou que iria reduzir para metade um investimento planeado de 2,3 mil milhões de euros e até a alemã Boehringer Ingelheim afirmou que estava a cancelar planos de expansão no valor de 900 milhões de euros. Ambas citaram a legislação proposta.

“A indústria está satisfeita com a forma como o governo do Reino Unido cedeu face à sua pressão”, disse Diarmaid MacDonald, da Just Treatment, um grupo de doentes do Reino Unido. “Gostariam muito que outros replicassem essa capitulação.”

O Ministério da Saúde alemão disse esta semana que ainda nada foi decidido e recusou comentar mais sobre as deliberações parlamentares.

ALEMANHA SOB PRESSÃO

Críticos afirmam que o Reino Unido cedeu à pressão da indústria. O governo britânico declarou que o acordo de abril com Washington garante acesso sem tarifas ao mercado dos EUA, ao mesmo tempo que cria um ambiente mais favorável à inovação para as farmacêuticas oferecerem empregos altamente qualificados.

Agora, a pressão sobre a Alemanha começa a produzir efeitos.

Na segunda-feira, uma fonte governamental disse à Reuters que algumas partes do plano contestado pela indústria seriam abandonadas, substituindo um mecanismo de desconto variável por um fixo, para responder às preocupações de que a incerteza prejudicaria o investimento.

Embora esta medida reduza a incerteza, fontes da indústria afirmam que não resolve preocupações mais amplas sobre o ambiente de preços na Alemanha. A proposta de lei será debatida no parlamento nos próximos meses e poderá sofrer alterações.

Essas fontes acrescentaram que o acordo do Reino Unido foi visto de forma positiva pelas farmacêuticas não só devido às mudanças no sistema de avaliação e pagamento de novos medicamentos, mas também por incluir compromissos relativos à inovação e ao acesso dos doentes.

O analista de saúde Diederik Stadig, do ING Bank, afirmou que as farmacêuticas estão a reagir de forma mais imediata na Alemanha, ao contrário de uma estratégia mais planeada no caso do Reino Unido, embora considere os dois cenários semelhantes.

“O governo alemão fez uma proposta: ‘queremos reformar os preços’. E a indústria respondeu: ‘tudo bem, mas isso afeta o nosso retorno do investimento’”, disse.

Tarifas, a política de preços dos EUA, a ascensão da China e o carácter lucrativo do mercado norte-americano tornam a Europa atualmente menos atrativa, acrescentou Stadig. “A indústria está a tornar a Europa bem consciente disso.”

UM CONFLITO MAIS AMPLO SOBRE OS PREÇOS DOS MEDICAMENTOS

A proposta de legislação na Alemanha para travar o rápido crescimento dos custos no sistema de seguro de saúde obrigatório colocou o país no centro de um conflito mais amplo entre farmacêuticas e governos europeus que começou há vários meses.

Em França, a autoridade nacional de saúde acusou, em abril, as farmacêuticas de utilizarem “pressão coerciva” para influenciar avaliações clínicas, incluindo ameaças de retirada de medicamentos do mercado.

A HollandBio, associação de biotecnologia dos Países Baixos, afirmou que as empresas estão a tornar-se mais cautelosas na apresentação de pedidos de reembolso e que o país corre o risco de descer ainda mais nas listas prioritárias de lançamento de medicamentos.

Esta tensão intensificou-se com o impacto na Europa da iniciativa do Presidente dos EUA, Donald Trump, de aplicar preços baseados na “nação mais favorecida”, que visa ligar os preços dos medicamentos sujeitos a receita no lucrativo mercado norte-americano aos preços mais baixos praticados noutros locais, incluindo na Europa.

Grandes farmacêuticas celebraram acordos com a Casa Branca para reduzir os custos dos medicamentos em troca de isenções tarifárias, aumentando a pressão para a subida de preços noutras regiões.

Alguns críticos viram a recuo parcial da Alemanha como um sinal preocupante do poder de influência da indústria, mas sublinharam que os países europeus também têm margem de manobra, dado que o bloco continua a ser um mercado importante, apesar de menos lucrativo do que os Estados Unidos.

“A América não é o único mercado do mundo”, afirmou Sally Gainsbury, analista do grupo de reflexão em saúde Nuffield Trust, acrescentando, contudo, que o acordo de preços entre o Reino Unido e os EUA constitui um aviso para a Europa.

“A realidade desanimadora é que este ‘manual do Reino Unido’ significa que os sistemas de saúde vão gastar mais, mas obter menos benefícios de saúde para as suas populações”, concluiu.

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